Meditações na Cartuxa



Uma pálida paisagem invernal de campos espargidos de neve e charcos de água. Esqueletos negros de árvores desnudas. Um alto céu de zinco. Um grande silêncio. Nesta solidão, levada desde uma altura, surge à clara linearidade de uma fachada de igreja, a que se enlaça um alto cerco, mais além do qual se vê uma série regular de edifícios pequenos. Na parte dianteira, uma explanada com uma grande cruz negra. A entrada está fechada – dir-se-ia que desde tempos remotos – com uma pesada parada negra de madeira esculpida. Um símbolo: sete estrelas ao redor de uma esfera com uma cruz em cima, acompanhada da frase: «stat dum volvitur orbi». Tal é a Cartuxa de Hain, perto de Düsseldorf.
A Ordem dos Cartuxos encontra-se entre as poucas sobreviventes da tradição contemplativa ocidental. Surgida em 1084, segue a mesma até os dias de hoje – ou seja, durante quase nove séculos – manteve sem modificações sua regra e sua constituição. Por quase nove séculos alguns homens separados do mundo praticaram a mesma ascese e cumpriram os mesmos ritos, nas mesmas horas repetiram idênticas orações; rimaram sua jornada de uma mesma maneira, que não deixa quase margem alguma ao arbítrio individual, através do uniforme desenvolvimento das estações, dos anos, dos séculos. A imutabilidade, representada pela cruz, por cima do movimento do mundo, é o sentido do símbolo e da divisa latina, aqui citada. Mas a cruz sobre uma esfera naquele particular modo foi também o antigo signo do poder universal…
«Wir haben úberhaupt keine Ruhe» – disse-nos sorrindo um dos «patres» cartuxos, ou seja: não temos nem um momento de descanso, de trégua. É o oposto do que se imagina habitualmente sobre a vida contemplativa. A regra cartuxa não deixa um só instante inactivo o sujeito: a totalidade da jornada encontra-se rigorosamente subdividida, de modo tal que a cada hora corresponde uma tarefa precisa, um certo acto ritual, uma determinada realização litúrgica, com um único breve intervalo de trabalho manual para interromper uma tensão interior que de outra maneira seria insustentável.
O isolamento e silêncio são conhecidas regras dos Cartuxos. Toda Cartuxa está construída de acordo com um mesmo tipo arquitectónico. Um jardim claustral no centro também serve de cemitério – um cemitério no qual o “homem” não figura – há ali tão só cruzes negras, sem nome. Em seu redor, e separadas uma das outras, encontram-se dispostas as habitações, em que cada cartuxo concentra o seu trabalho, as suas orações, a sua ascese: ali ele come, vela, descansa, encontrando-se com os outros tão-só no templo, para as acções litúrgicas colectivas, ou em raras solenidades, em que se celebra uma comida em comum: na clara severidade de um refeitório, no meio da parede de fundo, em lugar elevado, toma o lugar o Prior, concebido, na Ordem, quase como uma manifestação vivente de Cristo e investido de uma suprema autoridade.
O silêncio do cartuxo não é interrompido senão para um uso sagrado da palavra, para o ofício litúrgico: seja ele diurno ou nocturno. No meio da noite invernal, baixo o sinal do sino, luzes vacilantes surgem quase simultaneamente, desde a obscuridade entre as lentas porções de neve, para iluminar as estranhas sombras brancas encapuçadas que se encaminham com as suas lanternas até à capela. Ali tomam silenciosamente o seu lugar; e as luzes são apagadas. Tudo permanece numa penumbra diáfana. Alguns minutos de recolhimento, logo, depois de um breve e seco golpe, inicia-se a liturgia. É um rude canto gregoriano sem acompanhamento, sem variedade de tons: é um ritmo, que recorda as melodias árabes, mas que na sua monotonia encerra uma muito mais alta intensidade espiritual que acusa uma espécie de insensível anelo ou ímpeto, que seria sumamente difícil de descrever: é como conduzir-se até um limite, que se é incapaz de transcender, ainda estando totalmente desapegados do vínculo terreno. Entre os temas principais do canto, proposto por uma ou outra voz, intercalam-se pausas de recolhimento, que dão uma impressão mais forte: são momentos de um silêncio vivente, de um silêncio intenso, nos quais se diria que está presente “algo” no templo, uma força já diferente de todas aqueles que se encontram ali em recolhimento. O rito nocturno alcança às vezes três horas de duração. Ante um novo sinal, as sombras brancas apartam-se da penumbra, movem-se, as lanternas são acesas novamente, os «patres» retornam às suas residências para voltar a encontrar-se algumas horas mais tarde para o ofício da alvorada. Os cartuxos não se ajoelham nunca. Inclinam-se profundamente, ou nos momentos mais importantes, se recostam no solo como se tivessem sido abatidos.
Foi-nos dito em Hain para não termos ilusões a respeito do futuro da Ordem. E em verdade, especialmente em nossos dias, para muitos não existe nada mais anacrónico que a pura vida contemplativa. Inclusive em vários ambientes católicos acredita-se que o religioso pode ainda ter uma função tão-só deixando de lado a ascese passando a uma acção militante ou proselitista, em directo contacto com as forças do mundo e da história.
É um facto irrebatível que desde há muito o Ocidente identifica a acção com as suas modalidades mais exteriores, materiais e contingentes, pelo que se concebe como inércia ou fuga tudo aquilo que, ainda não sendo para nada não-acção (a vida ascética, ademais das renúncias, implica uma disciplina e uma concentração interior pelo menos tão grande como as próprias de qualquer “homem de acção”) não se deixa remeter a semelhantes modalidades. Ademais existem as confusões próprias de quem, encerrado no horizonte mais grosseiramente sensível, pensa que só as forças materiais e outros modos directos de combater e resistir sejam os decisivos e determinantes na história.
Donoso Cortes, que foi também um homem de acção pública, afirmou que para que uma sociedade seja firme “é necessário que exista um certo equilíbrio, conhecido tão só por Deus, entre a vida contemplativa e activa.” A necessidade de que o mundo mutável e incerto da acção encontre seu complemento e quase diríamos seu eixo no imutável da verdadeira contemplação – ou seja de uma interioridade virilmente desapega e projectada até à transcendência – foi reconhecida por qualquer civilização normal, até aquela em que Dante e Frederico II foram seus expoentes. E, em relação com isso, foi também concebida a realidade de uma acção de outro género, de uma acção silenciosa, compreendida em função de estabelecer “contactos”, de mover forças que, por ser invisíveis, não são menos eficazes que as puramente humanas, pois só através da via da ascese e do rito podem ser alcançadas. É sobre esta base que toda doutrina tradicional define que os ascetas devem estar ao lado dos guerreiros, que a contemplação ilumina, justifica e converte em absoluta a acção, que homens adequadamente dotados cumprissem de maneira ininterrupta, com sua aparente retirada do mundo, com a função de vincular a realidade humana com uma realidade mais que humana. Pontifex, antigamente, significava para os romanos “fazedor de pontes”. Uma antiga fórmula nórdica era: “O que é chefe que seja ponte…”
Um mundo que não queira ser de agitados, mas sim de seres que conheçam verdadeiramente a acção e saibam dominá-la, deve ter em conta tudo isto, evitando perigosas unilateralidades. Por certo hoje mais que nunca trata-se de apartar do modo que seja todas as forças evocadas a fim de actuar e de combater este mundo. Entretanto, pode-se também pensar que se nos últimos tempos as coisas não estão ainda piores, isso não se deve tão só aos chefes visíveis dos povos, mas pelo menos em igual medida à acção invisível e silenciosa de poucos seres espalhados e ignotos, neste como em outros continentes, que manterão, todavia, de alguma maneira, as relações entre o mundo visível e o mundo superior. Mas ainda é possível que para o olho "da outra margem" seja justamente estes que aparecem como os únicos pontos luminosos e firmes num mundo de névoa e agitação, como pequenas fogueiras acendidas na noite por parte daqueles que “velam” e que ainda se mantêm de pé.
Aqui por suposto que não pretendemos referirmos a ascetas de uma determinada fé ou tradição e não tratamos do problema relativo à medida, na qual as formas sobreviventes de ascese realizam verdadeiramente a mencionada função. Porém, a Europa apresenta hoje traços de similitude com aquele período de convulsão no qual, como reacção, surgiram as primeiras Ordens monásticas ocidentais. E muitos espíritos, incapazes de encontrar os mais altos e originários pontos de referência, dirigem-se hoje para o catolicismo. Não é nossa função entrar em tais problemas; entretanto um ponto nos parece claro: não é sendo indulgente até atitudes militantes que às vezes confluem inclusive no plano das motivações políticas e sociais, não é insistindo em veleidades proselitistas e apologéticas, não é buscando compromissos com o pensamento “moderno” e inclusive com as ciências profanas de hoje em dia, e sim se desapegando decididamente, insistindo tão-só no ponto de vista da ascese, da pura contemplação e da transcendência, que a Igreja poderá quem sabe, dentro de determinados limites, voltar a converter-se verdadeiramente numa força e assegurar-se assim uma inviolável autoridade. Se, justamente em tempos como os modernos em que o mundo da acção atingiu um paroxismo sem comparação alguma na história, quase por contraposição, deixando tudo mais, subordinando qualquer ambição semi-temporal, se deveria dar um relevo mais decidido ao pólo da pura transcendência e da ascese, e que uma força encontre na outra seu equilíbrio, e que nas horas mais angustiantes e nas provas mais duras a cada um seja dado a possibilidade de transfigurar todo o sacrifício e toda luta e de achar inclusive na morte a via até uma vida superior.

- Julius Evola em La Stampa, Fevereiro de 1943

A autarquia económica (II)

É bem conhecida a fórmula marxista segundo a qual “a economia é o nosso destino”, assim como a interpretação da história em função da economia relacionada com essa fórmula. No entanto, o determinismo económico é reconhecido igualmente por muitas correntes diferentes do marxismo e até opostas. É oportuno referir que semelhante fórmula é absurda em si mesma mas que, infelizmente, deixa de o ser quando observamos o mundo moderno, em que o homem lhe confere cada vez mais autenticidade. O homo œconomicus puro é uma abstracção, mas, como tantas outras abstracções, pode tornar-se uma realidade pelo processo de atrofia e absolutização de uma parte em relação ao todo: quando o interesse económico predomina, é natural que o homem sucumba às leis económicas e que estas adquiram carácter autónomo até se afirmarem outros interesses ou intervir um poder superior.

Que o “homem económico” não existe, foi o ponto de vista de Mussolini, que lhe opôs o “homem integral” (1933). A sua ideia era que “a política dominou e dominará sempre a economia”, relevando nesse contexto que o que se concebeu como destino do homem “foi criado nas suas três quartas partes por abulia ou pela vontade” (1932). Neste ponto, regressamos às perspectivas de Spengler. Estudando as formas com que um ciclo de civilização que chega ao fim se reveste (a descida da Kultur ao nível da Zivilisation), Spengler atentou justamente na fase em que a economia se torna soberana, ou seja, quando se realiza a união entre a democracia, o capitalismo e a finança. Tal união demonstra, aliás, o carácter ilusório das “liberdades” reivindicadas nos nossos dias já que, como é evidente, as “liberdades políticas” não são absolutamente nada sem a liberdade ou autonomia económica, e isso tanto no domínio individual como colectivo. Neste último, porque, num regime democrático, são os grupos detentores de riqueza quem controlam a imprensa e os meios de formação da “opinião pública” e da propaganda, no domínio individual e prático, porque o acesso às diversas “conquistas” da civilização moderna, técnica e económica e a sua prosperidade aparente, é pago com outras tantas alienações do indivíduo, pela sua inserção cada vez mais rigorosa na engrenagem colectiva movida pela economia. Perante isto, as “liberdades políticas” não passam de coisa ridícula.

Spengler previu uma fase sucessiva a que chamou “política absoluta” e pô-la em relação com o aparecimento desses novos chefes de tipo problemático a que já nos referimos. Todavia, sem esquecer as reservas que avançámos a esse respeito, podemos retirar de uma visão desse tipo a ideia de uma possível mudança de situação sob o impulso de um Estado forte baseado no destacado princípio da autoridade que podia pôr travões ao “gigante desenfreado”, a economia como destino. A expressão “gigante desenfreado” foi forjada por Werner Sombart, sobretudo quando se referia ao capitalismo moderno e às suas determinações imanentes. Pode, pois, ser tida em consideração essa referência específica: partindo do princípio da predominância da política sobre a economia e do regresso à ideia de Estado autêntico, da sua soberania e autoridade concretizadas num conjunto de estruturas adequadas, o desenvolvimento teratológico do capitalismo no sentido de uma produção infrene pode mesmo ser limitado com o objectivo último de reconduzir tudo o que é economia à posição subordinada de meio e de domínio circunscrito numa hierarquia mais vasta de valores e de interesses.

Para completar as presentes considerações, podemos relacionar esse fim último com o seu conteúdo e dizer que, do nosso ponto de vista, o essencial seria chegar-se a um equilíbrio, a uma estabilidade, à suspensão do movimento ilimitado. Não se pode exigir isso ao Fascismo, que tinha diante de si a difícil tarefa de reestruturação económica, industrial e social da nação, e isso, abstraindo dos projectos expansionistas ligados a certa aspiração à grandeza, mais que ao splendid isolement autárquico. Nestas condições, era natural uma orientação activa e dinâmica, um impulso para a frente, que chegou a ser enunciado na fórmula “parar é perder”, cujo carácter problemático compreendia a evidente implicação anti-autárquica consistente em aceitar sem medidas defensivas a inserção num processo global de condicionamento.

A questão última, a de um ideal de civilização a escolher de modo definitivo ou a sua adopção como regra geral, não chegou, pois, a ser posta. Seria caso para perguntar até que ponto o Fascismo sentiu a vocação de ir contra a corrente do movimento geral que conduz o mundo moderno para o que se considera progresso, mas a que mais valeria chamar “fuga em frente” (Bernanos), dada a verdadeira significação interna desse mundo. Em certo momento, até que ponto a orientação justa não teria consistido em virar-se para o chamado “imobilismo”, termo usado pelos que confundem estabilidade e limite positivo voluntário com imobilidade e inércia, e reconhecer que pôr travões à direcção horizontal do futuro, à evolução no sentido material, técnico e económico, aos processos que acabam por escapar a todo o controle, era a condição de um progresso autêntico, de um movimento vertical, de realização das possibilidades superiores e da verdadeira autonomia da pessoa. Em suma, retomando uma fórmula conhecida, a condição de realização do ser, indo mais além do bem-estar.

- Julius Evola, "O Fascismo visto da Direita"

A autarquia económica (I)

Passando a outro ponto, o que diz respeito à economia nacional e às suas relações com o estrangeiro, é comum em muitos meios condenar o princípio fascista da autarquia e considerar esta absurda. Pessoalmente, não estamos de acordo com semelhante condenação.

No domínio das nações, e não menos no das pessoas, um dos maiores bens é a liberdade, a autonomia. Essa exigência foi afirmada de modo especial por Mussolini ao afirmar: “Sem independência económica, a autonomia da nação fica comprometida. Mesmo o povo de elevadas capacidades militares pode ser vergado pelo bloco económico” (1937). Segundo ele, pois, a nova fase da história italiana devia “ser dominada por este postulado: tão depressa quanto possível, conseguir-se o máximo de autonomia na vida económica da nação” (1936). Falar de “mística da autarquia” (1937) tem de ser levado à conta de um abuso da palavra mística que caracterizou os últimos anos do Fascismo. Entretanto, apoiando-nos na própria origem da palavra, poderia falar-se de ética da autarquia: vem-nos da antiguidade greco-romana, especialmente das escolas estóicas, que professavam a ética da independência e da auto-soberania da pessoa, valor que sempre se jurava seguir quando se tornava necessário o severo princípio de abstine e substine.

O princípio fascista da autarquia pode ser considerado, pois, uma espécie de extensão dessa ética no plano da economia nacional. Se necessário, manter um nível geral de vida relativamente baixo, adoptar a austerity, que, aliás, num contexto diferente, foi praticada aqui e ali por outras nações depois da guerra, mas garantir o máximo de independência, orientação que aprovamos sem hesitar. No caso de uma nação de recursos naturais limitados como a Itália, o regime de autarquia e austeridade inscrevia-se precisamente na direcção justa. Relativamente ao curso da vida nacional, achamos perfeitamente normal uma situação oposta a tudo o que hoje temos: entre outras coisas, aparente prosperidade geral e despreocupação no dia-a-dia acima das possibilidades de cada um, défice assustador do orçamento de Estado, instabilidade sócio-económica extrema, inflação galopante e invasão de capital estrangeiro, cujas consequências se traduzem em múltiplos condicionamentos visíveis e invisíveis.

Naturalmente, não é necessário ir muito longe no sentido contrário. A analogia que a todos os níveis nos oferece o comportamento de um homem digno desse nome, serve-nos de guia. Esse homem pode favorecer o desenvolvimento do corpo e o bem-estar físico sem com isso se tornar escravo. Sempre que necessário refreia certos impulsos, mesmo ao preço de sacrifícios, e obriga-os a obedecerem a exigências mais elevadas: é indiferente a esse homem enfrentar tarefas que reclamam tensões especiais. Para tornar possível o que corresponde à própria orientação no plano nacional é que devem estabelecer-se relações justas entre o princípio político do Estado nacional orgânico e o mundo da economia, a parte corporal do Estado.

- Julius Evola, "O Fascismo visto da Direita"

Montaña y Tradición

Um blogue a visitar.

Solstício de Verão

A Legião Vertical celebrou no passado fim-de-semana de 19-20 de Junho mais um Solstício de Verão com a realização da já tradicional “Marcha dos Elementos”. Publicamos de seguida algumas fotos de mais estas jornadas de convívio e camaradagem:











Os corpos de «elite»


Tácito, na sua Germanie, descreve «sociedades de homens» nascidos da luta e consagrados a Odin, deus da vida soberana e da guerra. São eles os Catos e os Harias. Depois deles, houve os hoplitas de Esparta, os legionários romanos, os cavaleiros teutónicos, os mosqueteiros cinzentos, a guarda imperial, os cadetes da Santa Rússia. Outros tantos golpes poderosos assestados sobre a bigorna da história. Outros tantos sonhos tornados realidade. Pelo sangue derramado.
Tudo isso se confunde num eterno passado-presente — no entrelaçado do tempo. Cameron, Maratona, Lepanto, Estalinegrado, Bir-Hakeim, é ao mesmo tempo ontem, hoje e amanhã. Como tudo o que, na história, tem voz, e está vivo.
Nas edições André Balland, a colecção «Corps d’élite» foi confiada a um antigo combatente da Argélia: Dominique Venner. Dez volumes apareceram já: Les Samourai, Les Marines, La Légion, Les Paras, La Haganah, Les Waffen SS, Les Cosaques, L’Afrika Korps; Les Commandos e Les Chevaliers Teutoniques. São aventuras e combates. Mas também evocações de um tipo de homem fora do comum.
É preciso não alimentar ilusões. Um corpo de elite não se define como tal senão quando o exército, tomado no seu conjunto, já não é um exército de elite. É então que o corpo de elite se torna a sua quinta essência e o seu modelo. O corpo de elite recorda a época em que todo o exército era à sua imagem porque composto, no essencial, por voluntários.
Ao soldado, que exercia a profissão das armas para receber um «soldo», opunha-se o guerreiro — o qual, longe de estar encarregado apenas da protecção da sociedade civil, constituía o verdadeiro núcleo da organização social. O dever (para todos) do serviço militar, produto da democratização da guerra, não havia ainda substituído o direito (para alguns) de trazer armas. É neste sentido que a existência de unidades de elite na época contemporânea traduz também a decadência da coisa militar e a evolução dos exércitos regulares. E não será um acaso que os Estados Unidos, o país ocidental mais instintivamente antimilitarista, porque o mais fundamentalmente hostil a toda a sociedade hierárquica, criaram os marines, que são, simultaneamente os seus reprovados (aqueles que são escondidos por serem os mais diferentes) e o seu último recurso.
O soldado de elite droga-se com a vida um pouco forte. Suprema indiferença. «Em Esparta», recorda Maurice Bardèche, «a educação não tinha outro objectivo que não o de exaltar a coragem e a energia. Aos 12 anos, começava o treino viril. Vida colectiva, cabelos cortados curtos, leito de junco que cada um fazia, pés nus para andar e correr, túnicas sem qualquer outra espécie de roupa interior, corpos nus durante os exercícios no estádio» (Sparte et les Sudistes).
François d’Orcival descreve uma parada entre os marines: «Movimentos cruzados, em quadrados, em círculos, em linha. Bailado terrível de fuzis e de homens que nada acompanha. Os guerreiros sós. Mas solidários, aparentados, do mesmo sangue. Estranhos ao mundo. Reparai como eles se assemelham: o mesmo sorriso de criança grave gravado na cara de um homem que já levou a melhor sobre a morte».
Dar uma absoluta confiança em si próprio. Mas em primeiro lugar, como no estádio, ultrapassar a fadiga, ir até aos limites do esforço. Encontrar-se arquejante, semimorto, no fim das suas próprias energias, com o orgulho de haver realizado o impossível e de se conhecer verdadeiramente. A guerra: os Jogos Olímpicos a todo o momento. Tendo, por árbitro, a bala e a faca.
Entre os marines, o Yes sir!, fornece o élan. «A instrução dura oito semanas», diz o Drill Instructor aos seus alunos. «Durante esse período, as três respostas mais importantes que vocês terão de dar são: Sir, Yes sir, No sir!». Começa-se por se pensar que o sargento é um pouco atrasado mental. Mas depois, começa-se a perceber. Ao fim de quatro semanas, «o sargento torna-se um deus aos olhos dos seus rapazes. Um deus, um diabo, um leão. Porque tem fibras de aço no coração, porque é o melhor em tudo, porque anda com os outros, porque bebe mais do que os outros. Porque nada lhe faz medo».
Liberdade, igualdade, fraternidade: apenas no terreno isso se torna verdade. «Na Haganah, as graduações não dão direito a qualquer privilégio. Para além do de partir ao assalto à frente dos seus homens, gritando Aharaï (‘Segui-me!?)», assinala Thierry Nolin.

Uma lei que nunca foi escrita

O exemplo? Jean Mabire e Yves Bréheret citam o de um piloto kamikaze que se vai esmagar sobre o porta-aviões aliado. «Ele pica com toda a força dos seus motores e da sua vontade. Não quer pensar em nada mais do que nesse navio inimigo que cresce e que ele não deve falhar. Por nada no mundo. Ele é o chefe e o exemplo. Sente contra a sua coxa o punho do seu sabre de samurai. Os segundos parecem séculos. Pica. Neste momento ele é, por si só, todo o Japão. Ele devém, simultaneamente, um torpedo e uma nação.»
Drieu la Rochelle dizia: «Há muita acção no homem de sonho, e muito sonho no homem de acção».
Um dia em que o imperador do Japão tinha dirigido uma mensagem em que fazia o elogio a um dos seus grandes servidores, este, lendo-a, apercebeu-se de que esta estava redigida no passado. Compreendendo a alusão, fez seppuku («hara-kiri») para pôr de acordo os factos com o tempo dos verbos.
O soldado das tropas de elite encarna as virtudes do seu país, levadas ao paroxismo. Mas poderemos dizer que ele tem uma pátria? Ele é a sua própria pátria. Na beira de uma pista de aterragem, à altura de Khé-Sanh, uma tabuleta proclama: Home is where you dig it («Tu pertences ao sítio onde cavares a tua sepultura»).
Guadalcanal, Iwo Jima, Arnhem: o mesmo tipo de homens dos dois lados. Não será por acaso que os pára-quedistas franceses retomaram os cânticos graves e profundos do outro lado do Reno; e que o chefe da FLN Amirouche, morto em 1959, usava a boina dos «Bigeard’s Boys». Apenas se combate o bom combate entre homens da mesma classe — e que se estimam. Energia contra energia, músculo contra músculo: a única igualdade concebível. (É por essa mesma razão que o duel é o combate de toda a aristocracia.) Pára-quedistas franceses e alemães, cadetes soviéticos, heróis do Japão eterno: todas estas faces geladas têm algo de fraternal, numa época em que a «moralidade» da guerra exige que o adversário se torne no Mal em si mesmo. Apenas com aquela atitude poderão as pessoas sorrir-se no momento de se matarem entre si.
Um pára-quedista não é, apenas, um «aerotransportado». O espírito pára cria-se em dez segundos. No momento do primeiro salto. Nesse momento, o medo é pago pelo seu cêntuplo. Erwan Bergot explica porquê. «Porque, a partir de então, o mundo divide-se em duas partes: os que saltam e os outros, os ‘rabos de chumbo’…»
A incorporação nos marines começa pelo cabelo rapado à máquina zero. «Desta primeira limpeza», escreve d’Orcival, «os voluntários saem feios, desgraçados, inferiores: as orelhas a abanar, as cabeças cheias de bossas, informes, e os olhos vagos onde não cintila sequer uma pequena luz. É de propósito. Eles são iguais na fealdade. Deixam de ter alguma coisa de si próprios. O outro mundo afasta-se, e eles não podem voltar atrás. Ninguém os reconheceria. Ei-los marcados».
Humilhados? De forma alguma. «Para mostrar bem aos novos que eles penetram numa casta, é preciso começar por reduzi-los ao estado de escravos, para que de seguida eles se elevem apenas segundo os critérios dessa casta.»
Após terem sido arrastados até ao ponto mais baixo da escada, eles vão poder dominar o mundo.
A psicologia do corpo de elite é uma psicologia de grupo. O espírito de corpo não se encontra muito longe da moral dos gangs. Lei do milieu? Talvez. O pelotão é como a patrulha, o bando, a tribo, o clã do «Livro da Selva». «Somos do mesmo sangue, tu e eu.»
A lei exige que se leia um extracto do código aos marines que se alistam. Faz parte dos seus direitos. Mas um instrutor acrescenta logo de seguida: «Aqui, não há senão uma lei: a nossa. Esta lei ninguém alguma vez ousou escrevê-la. Porque é a lei do sangue».
Repetir-se-lhe-á mais tarde: You ain’t ever sorry for nothing you do in the marine corps («Jamais terão de se desculpar pelo que fizerdes nos marines.») E os símbolos acrescentam-se ao vocabulário de tradição. Armaduras terrificantes, runas prateadas, camuflado, tudo concorre para soldar os homens em um só bloco. Os soldados comungam com as suas armas como cavaleiros recentemente armados. A boina merece-se como uma legião de honra. E o bivaque Bigeard, meio Afrika Korps, meio Sherlock Holmes, vale muito dinheiro no mercado das recordações.
«Vermelho ou verde, preto ou kaki», escreve Erwan Bergot, «desde à cerca de trinta anos que a boina permanece como o símbolo dos pára-quedistas. Pô-la na cabeça significa aceitar, ao mesmo tempo, as obrigações e os riscos, mudar, simultaneamente, de pele e de mentalidade».

O segredo da Ordem

Para o homem do corpo de elite a honra fundamenta-se, necessariamente, sobre a fidelidade: é a fórmula de Código Saxão. Divisa de Louis d’Estouteville, na época da Guerra dos Cem Anos: «Lá onde se encontra a honra, lá onde se encontra a fidelidade, lá apenas está a minha pátria». Da legião: «Honra e fidelidade». Dos marines: Semper fidelis. Da SS: Mein Ehre heisst Treue («A minha honra chama-se fidelidade»).
«Estou pronto a consentir qualquer sacrifício», diz o soldado do Irgoun prestando juramento, «mesmo o da minha vida, dando sempre a precedência ao Irgoun sobre os meus pais, os meus irmãos, as minhas irmãs, a minha família, até que construamos um Israel soberano ou que a morte me separe das nossas fileiras». (Podia-se já ler, na Bíblia: «Quando o teu irmão ou o teu filho, ou a tua mulher bem-amada, ou o amigo íntimo que amas de todo o teu coração te quiser seduzir dizendo-te em segredo: ‘Vamos, e sirvamos outros deuses’, tu não deixarás de o matar». Deut. XIII, 6-9.)
Aí por 1957, o general Chesty Puller declara: «O amor aos marines é mais forte do que o amor à pátria, o instinto de conservação ou a fé na sua religião».
— O soldado do corpo de elite não despe nunca completamente o uniforme, diz Dominique Venner. É um iniciado. Suportou provações que fazem dele um outro homem. Descobriu o segredo da Ordem. É o depositário do Graal.
Para ele, muitas vezes, as coisas «acabam mal». E pode-se dar por muito feliz quando não tem de comparecer perante o Tribunal de Guerra (Mathew McKeon), ou em Tribunal de Segurança do Estado (Roger Degueldre). A maioria das vezes é, contudo, o inimigo que ajusta as contas. As elites guerreiras vivem na recordação das suas festas sangrentas mais do que na das suas vitórias. A Haganah nunca mais esqueceu o sacrifício dos Zelotas de Massada. A legião continua a festejar Camerone. Para não falar em Arnhem e Fort-Alamo. Mas entretanto, é necessário durar até à queda.
Ao longo de toda a instrução, o cadete prepara os seus esponsais com a morte. O samurai, a sua «banda de resolução» a cingir-lhe a fronte, olha-a bem de frente. Um sargento dos marines disse um dia: «A morte deve ser magnífica». «Se a morte nos corta o caminho», cantam os paras, «nós desejaremos fazer escola».
De onde um certo romantismo que pode ser prejudicial a uma certa eficácia: vale mais uma bela derrota do que uma triste vitória. Trotsky dizia: «O primeiro dever de um revolucionário é o de sobreviver». Questão de estilo. Há cães vivos e leões mortos.

Um ritmo desconhecido

O soldado de elite age à margem na fronteira em que a morte e a vida ombreiam. É verdade que ele mata com a mesma indiferença com que morre. «Juda reerguer-se-á pelo fogo e pelo sangue», diziam os fundadores da Haganah. E quando é dito aos marines «Get your job done properly» («cumpri a vossa tarefa limpamente») isso quer apenas dizer: «sem bravatas». Amor puro e simples de um certo estilo de vida. Nietzsche: «O que se faz com amor, faz-se sempre para além do bem e do mal».
Por mais que se tente representar o combatente de elite sob os traços de um criminoso ou de um patife, os nossos contemporâneos não se podem defender, no que a eles respeita, de um certo fascínio: as multidões aplaudem sempre a legião. Há nela algo que brilha com um sombrio e misterioso clarão. Como um tambor que rufa a um ritmo pesado e desconhecido.
Na véspera da batalha de Okinawa, um jovem samurai despede-se da sua família. Será morto no dia seguinte. Num curto poema, escreve: «A vida não admite mais do que um caminho. O de se manter fiel ao seu destino». Após ter lido este texto, a sua mãe acrescenta alguns versos: «Que tu partas, e que nós fiquemos, é o teu bem que te dita o caminho. Quem se poderia lamentar?». E, por sua vez, o pai traça estas duas linhas: «Deves perecer, e a tua alma será imortal. Tenho de te felicitar pela tua partida». Tudo está dito — tudo o mais é silêncio.
Um alferes pára-quedista, citado por Erwan Bergot, afirma com orgulho: «Quando trazemos na cabeça uma boina encarnada, não temos necessidade de nos perguntarmos sobre o que quer que seja. Porque se formos uns angustiados, então mais vale ir para a Manutenção Militar ou para o Serviço de Material». Este tipo de declarações origina sempre o sarcasmo dos «rabos de chumbo». É que o mundo dos corpos de elite é, também, o das verdades simples. A sua moral não é do tipo utilitário. O para que salta, com o coração a bater na boca do estômago; o samurai que, sem o mínimo tremor, oferece a sua cabeça para ser decepada; o marine, olhou perdido no horizonte, indiferente às injúrias do instrutor — será que eles se perguntam «para que é que isto serve?».
E porque seria necessário que isso servisse para alguma coisa? Outrora, os marines usavam um pedaço de coiro que lhes mantinha a nuca inteiriçada. O general Vandergrift, que em 1946 teve de os defender perante o Congresso, declarou: «Pôr-se de joelhos não está na tradição do corpo». Justificar-se? Noblesse se tait.

- Alain de Benoist (in «Nova Direita, Nova Cultura»)

Julius Evola – Presente!

Como todos os anos, a Legião Vertical evocou hoje, em cerimónia, mais um aniversário da morte do Mestre.

O “estilo” que deve tomar relevo é o de quem se mantém em posições de fidelidade a si mesmo e a uma ideia com uma intensidade total, com repulsa por qualquer compromisso, num empenhamento completo que se deve manifestar não apenas na luta política, mas em todas as manifestações da existência: nas oficinas, nos laboratórios, nas universidades, nas ruas, na própria vida pessoal e afectiva. Deve atingir-se o ponto em que o tipo de que falamos e que deve ser a substância celular do nosso ordenamento, seja bem reconhecível, inconfundível, diferenciado, e dele se possa dizer: “Trata-se de alguém que actua como um homem do Movimento”.

(…)

Além disso, é importante, é essencial, que se constitua uma elite que defina a Ideia, em função da qual nos devemos unir, com intensidade firme, rigor intelectual e absoluta intransigência e que afirme essa ideia sobretudo sob a forma de um homem novo, do homem da resistência, do homem de pé entre as ruínas. Se é possível ultrapassar este período de crise e de ordem ilusória, apenas a esse homem pertencerá o futuro; se, porventura, não puder ser detido o destino que o mundo moderno deu a si próprio e que agora o arruína, em tal situação as nossas posições internas serão mantidas: suceda o que suceder, o que deve ser feito será feito, pois pertencemos àquela pátria que nenhum inimigo conseguirá ocupar ou destruir.

― Julius Evola, Orientações

Boletim Evoliano, núm. 9 - Brevemente!

Hitler, num discurso pronunciado em 1933 em Nuremberga, reconheceu correctamente que a forma física nórdica nem sempre se acompanha de elementos espirituais correspondentes, de tal modo que, a este respeito, o critério decisivo deve ser dado pelo exame da atitude da alma e do espírito, pelo carácter, pelas obras.

19/05/1898 – 11/06/1974

A civilização moderna representa uma perversão

«A civilização e a sociedade moderna representam uma perversão essencialmente pelo seguinte motivo: pelos caracteres de uma hipertrofia teratológica de certos valores em relação aos restantes. Não é certamente a primeira vez na história que se manifestam anomalias, no sentido de desenvolvimentos unilaterais das possibilidades mais inferiores, mais “humanas”, mais materialistas em relação àquelas que, num tipo normal e espiritual de Estado, definiam os estratos sociais superiores e dirigentes. Mas então tratava-se sempre de manifestações esporádicas, cujo carácter negativo era claro para todos. O que por sua vez caracteriza a sociedade moderna é uma racionalização e uma naturalidade do anormal. Que tudo hoje tenha que ser medido nos termos daqueles valores, que antigamente eram próprios tão-só das castas inferiores, que não se saiba pois pensar senão em termos de “economia”, ou de “trabalho”, ou de “política” (em sentido materialista e secularizado), ou de “rendimento”, ou de “serviço”, ou de “colectividade”, e assim sucessivamente, também quando se trata de problemas de uma ordem totalmente diferente, parecia até há pouco totalmente natural, e parecia natural que tudo o resto fosse considerado “abstracção”, “utopia”, “idealismo inane”, “anti-historicismo” próprio de quem não tem o que fazer. O problema reconstrutivo é portanto acima de tudo um problema de limite, ou seja, de circunscrição; depois é um problema de integração, de compensação, de hierarquia. Trata-se, digamo-lo assim, de travar uma força, que é devastadora quando desencadeada, até às suas últimas consequências, e que transporta consigo tudo o resto: trata-se de sujeitá-la a leis válidas não em sua função, mas em função de interesses e princípios mais elevados. Para tal fim há que limpar o campo de todas aquelas formações políticas e de todos aqueles mitos sociais que, partindo do inferior, têm a ilusão de poder criar uma ordem, que é momentânea, contingente, violenta, uma vez que provem justamente das formas últimas da queda da ideia de Estado: representando efectivamente emergências do irracional, privadas da luz de qualquer verdadeiro princípio.»

— Julius Evola, «A reconstrução da ideia de Estado», in Lo Stato, Abril de 1934

O Estado Tradicional

O Estado tradicional é orgânico, não totalitário. É diferenciado e articulado e admite zonas de autonomia parcial. Coordena e faz participar na unidade superior forças a que reconhece liberdade. Precisamente porque é forte, não tem necessidade de recorrer à centralização mecânica: esta só é reclamada se tem de controlar uma massa informe e atómica de indivíduos e de vontades, o que, entretanto, faz com que a desordem não possa ser verdadeiramente eliminada mas contida provisoriamente. Segundo a feliz expressão de Walter Heinrich, o Estado autêntico é omnia potens, não omnia facens, isto é, detém no centro um poder absoluto que pode e deve fazer valer sem entraves em caso de necessidade ou de decisões últimas e que vai além do fetichismo do chamado “Estado de direito”. Não intervém em tudo, não impõe a vida de caserna (no sentido negativo) nem conformismo nivelador em lugar de reconhecimento livre e lealdade, como não procede a intervenções impertinentes e imbecis do domínio público ou estatal no domínio privado. A imagem tradicional corresponde à gravitação natural de sectores e unidades parciais em redor de um centro que governa sem constrangimentos, que actua por prestígio, de uma autoridade que certamente pode recorrer à força, mas da qual se abstém o mais possível. A prova da força efectiva do Estado é dada pela margem concedida à descentralização parcial e racional. A ingerência sistemática do Estado não pode ser um princípio, a não ser que se trate de socialismo de Estado tecnocrático e materialista.
Por contraste, a missão essencial do Estado autêntico é criar um determinado clima geral, em certo sentido imaterial, como foi próprio a todos os regimes da época precedente. É a condição necessária para que tal sistema, onde a liberdade é sempre o factor fundamental, tome forma de modo praticamente espontâneo e funcione de maneira justa, com um mínimo de intervenções rectificadoras.

- Julius Evola, "O Fascismo vista da Direita"

O posto intermédio do nacionalismo

Em muitos fenómenos políticos contemporâneos é visível uma certa ambiguidade, que os torna susceptíveis de valer tanto como formas pertencentes à direcção descendente, quer como apoios para uma reconstrução. O primeiro destes fenómenos é o nacionalismo. Indicamos já num outro artigo em que sentido a afirmação do fenómeno nacionalista constituiu uma queda: na medida em que o mesmo significou o advento do colectivo democraticamente auto-organizado, substituindo a unidade de tipo aristocrático-espiritual por uma forma totalmente laica e secularizada, colocando como supremos os valores que apenas a raça, o sangue, a terra ou a história em sentido inferior podem definir, quase que ressuscitando o totemismo: tal como no totemismo, neste nacionalismo demagógico o sujeito tem que sentir-se, acima da sua dignidade de pessoa, como grupo, colectividade, facção. (…) Tomado neste seu aspecto, o nacionalismo encontra o seu lugar no processo de queda quadripartida explicado por nós, entre a época do domínio da terceira casta (época dos “mercadores”, capitalismo, liberalismo, plutocracia) e a época do domínio da última casta (bolchevismo) (1). Mas justamente neste último é possível conceber um nacionalismo de tipo diferente que, em semelhante posto intermédio, se possa encontrar não em sentido descendente, mas voltando a ascender. Tal é o nacionalismo que tem valor não pelo aspecto de “colectivização” interna, mas sim pelo aspecto da diferenciação externa, ou seja, como força que se recupera do colapso colectivista-internacionalista, reage contra o mesmo, estabelece novas e firmes circunscrições dentro das quais deve manifestar-se uma função organizadora em sentido superior, uma força diferenciadora de tipo superior, ou seja, espiritual.

– Julius Evola, El Estado Tradicional, Ediciones Heracles, Argentina, 2002, pp. 73-75.

1. Ver “A Doutrina das Quatro Idades”, in Boletim Evoliano nº 2.

A Legião é a nossa Ordem

Vestimos uniforme e não somos soldados,
Marchamos e não somos soldados,
Treinamos, lutamos, e não somos soldados,
Obedecemos e não somos soldados,
Ordenamos e não somos soldados,
A disciplina é nossa vida e não somos soldados,
Honramos os nossos camaradas e não somos soldados,
Combatemos, vencemos, morremos e não somos soldados.

Oramos e não somos monges,
Jejuamos e não somos monges,
Penitenciamo-nos e não somos monges,
Cumprimos o Rito e não somos monges.

Sou Guerreiro, sou Legionário,
Metade monge, metade soldado!

E porque "a Fidelidade é mais forte que o Fogo", de novo lá estaremos tendo o Sol como testemunha

A Legião Vertical realizou no passado fim-de-semana de 24 e 25 de Março a sua celebração do Equinócio de Primavera. Algures no interior transmontano, num ambiente familiar e de camaradagem, assinalamos a passagem de mais um equinócio.

O primeiro dia iniciou-se cedo pela manhã, com a partida em direcção ao nosso destino transmontano, ao qual chegamos à hora do almoço. Após a instalação numa antiga escola primária, agora transformada em empreendimento de turismo de habitação/rural, fizemos uma refeição leve e demos início ao nosso recheado programa de actividades.

A primeira actividade consistiu numa introdução ao Ikebana, a arte dos arranjos florais japoneses, organizada pelo Núcleo de Arte e Tradição (NAT). De seguida procedemos à realização de vários exercícios de Tai-Chi-Chuan, uma arte marcial interna, até meio da tarde, altura em que fizemos uma pausa para repousar e lanchar, tendo retomado o nosso programa por volta das 17:30, com a realização de vários exercícios de artes marciais (com e sem bastão) até ao final da tarde. Após o merecido repouso, seguiu-se, por volta das 20:00, um animado jantar, que consistiu de saladas e auto serviço de Raclete (queijo suíço derretido c/batatas) . Por volta da meia-noite, e já depois de arrumarmos as mesas e a cozinha, realizou-se um “brinde romano”, cerimónia plena de ritual e solenidade. Leram-se breves palavras alusivas à cerimónia e ao seu significado e evocaram-se os nossos melhores exemplos ancestrais (desde os 300 espartanos das Termópilas até aos cruzados cristãos da era medieval). O primeiro dia de actividade deu-se por encerrado já cerca das 2:00, já que antes de recolher às camaratas os homens fizeram ainda uma guarda de dois turnos à casa.

O segundo dia iniciou-se ainda mais cedo, uma vez que por volta das 7:00 estávamos já todos de pé e preparados para saudar o Sol, que deveria nascer por volta das 7:30. Metemo-nos ao caminho, sendo que o frio e o vento que se faziam sentir não foram suficientes para nos demover da caminhada que nos levaria até ao cimo dum monte próximo do local onde nos encontrávamos. Já no topo do monte aguardamos pacientemente, em formação, até que o disco solar surgisse totalmente no horizonte, altura em que saudamos o Sol “romanamente”. A ocasião serviu também para que alguns legionários renovassem o seu juramento de fidelidade para com a Legião. De seguida regressamos “à base” para tomarmos o pequeno-almoço e nos prepararmos para uma caminhada até à hora de almoço. Após uma breve exposição de algumas noções básicas de orientação e cartografia iniciamos a nossa caminhada que nos ocuparia toda a manhã. Por volta das 13:30 chegamos ao local onde almoçaríamos um fausto arroz de feijão e costelas na brasa. Mais uma vez, e como não podia deixar de ser, a refeição decorreu num ambiente animado e de camaradagem. No final da refeição, e após um período de repouso, realizou-se uma pequena cerimónia de atribuição de “prémios” a alguns dos elementos presentes pelo seu contributo em prol da Legião.

Estas jornadas, propositadamente intensas do ponto de vista físico, como forma de nos recordar que a vida é Milícia e a nossa missão é Servir, foram, sem dúvida, um tónico revigorante do ponto de vista espiritual. Brevemente haverá mais!
Powered by Blogger