Aristides de Sousa Mendes: falsificação e mentira


Escrito por Miguel Bruno Duarte

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Veio finalmente a lume, numa edição de autor, o livro intitulado O cônsul Aristides de Sousa Mendes: a Verdade e a Mentira, assinado pelo embaixador Carlos Fernandes. Trata-se, na sua essência, de uma desmitificação da figura de Sousa Mendes enquanto herói salvador de milhares de refugiados no eclodir da Segunda Guerra Mundial, entre os quais um grande número de judeus, bem como da reposição da verdade histórica falseada no plano de uma campanha interna e internacional que não poupa a pessoa impoluta e aristocrática de Oliveira Salazar, assim como membros do Ministério dos Negócios Estrangeiros e outras figuras no contexto afim (1).
De resto, num livro de José-Alain Fralon sobre A. de Sousa Mendes (2), constam igualmente alguns elementos que nos ajudam a compreender até que ponto se fabrica, insinua e propala a mentira enganosa sobre tão desditosa personagem, a saber:
1. O teor acintoso e desrespeitador para com o pai de Oliveira Salazar, como se depreende da seguinte passagem: «Terá o jovem Salazar tido contactos com Aristides ou César de Sousa Mendes durante a infância? Com certeza que sim, mas terão sido daqueles olhares típicos de menino pobre, mistos de rancor e admiração, ao ver passar os filhos dos ricos. Afinal, dada a sua profissão, o pai de Salazar poderia bem ter sido o feitor dos Sousa Mendes» (3). Pois, talvez poderia bem ter sido, mas não foi. E por contraste ao alegado ressentimento de António de Oliveira Salazar para com os filhos dos ricos, é Franco Nogueira (4) quem, condignamente, nos traça o perfil de uma criança que muito prezava e estimava os valores familiares, particularmente presentes na forma solícita e afectuosa com que auxiliava o Tio António Feitor na leira, ou tratava com extremos de carinho sua mãe Maria do Resgate, a quem, de madrugada inclusive, acudia nas horas de aflição (5);
2. O facto de, em Antuérpia, Sousa Mendes – que tinha, na esfera administrativa do Consulado, o direito de cobrar taxas aos navios que ali faziam escala – ter pedido, em 1932, um novo aumento dos gastos de representação, enviando «ao ministro partes de um jornal belga, com números que [alegadamente] justificavam a pretensão com o aumento do custo de vida» (6). Além disso, também consta o envio de uma carta ao Presidente da República na qual, supostamente, os filhos do cônsul, justificando a prossecução dos estudos, imploravam pela sua permanência em Lovaina (7). Todavia, a resposta não se faria esperar, na medida em que intimava Sousa Mendes a não confundir os negócios do Estado com os assuntos de família (8);
3. O caso de Sousa Mendes não solicitar autorização superior para se ausentar do seu posto em Bordéus no eclodir da Segunda Guerra Mundial, de modo a poder levar os filhos para Cabanas de Viriato numa enorme viatura que baptizara com o nome de Expresso dos Montes Hermínios, e que, no lance, acabou por capotar numa curva perto de Salamanca a ponto de ter sido um milagre não terem todos morrido em tão inusitado acidente. Aliás, quem nesse mesmo momento percorria a estrada e dava de caras com tamanho espectáculo assinalado pelas placas diplomáticas da viatura em causa, era nada menos que a mulher do Generalíssimo Franco, que, estupefacta, chegara ainda a perguntar se precisavam de ajuda. A resposta, naturalmente evasiva (9), indiciava assim um Aristides em situação de desobediência, coisa que, como veremos, foi sempre uma constante na sua atribulada carreira de cônsul;
4. Por fim, o facto de, a «20 de Junho de 1940, a Embaixada do Reino Unido em Lisboa, numa estranha carta dirigida ao ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal», ter-se queixado «da actividade de Sousa Mendes, acusando-o de trabalhar fora das horas de expediente e de cobrar taxas suplementares para a concessão de vistos» (10).
Posto isto, a principal questão continuava por explicar, isto é: como teria sido humanamente possível que o «Schindler português» tivesse dado, em 1940, os 30 000 vistos (11) – que ademais nunca referiu (12) – a refugiados em apenas três dias – 17, 18 e 19 de Junho em Bordéus e no dia 21 em Baiona –, dos quais 10 000 a judeus? (13) A questão é, pois, clarificada por Carlos Fernandes:
«(…) a invenção dos 30 000 vistos, em cerca de três dias, dos quais 1/3 a judeus, é completamente mirabolante, obviamente não provada, porque é coisa impossível de se efectivar materialmente, pura e simplesmente por falta de tempo para dar tanto visto com tão pouco pessoal. Façam as contas e concluam. De facto, mesmo contando três dias, só teríamos 72 horas; descontando nem que fossem só 10 horas por dia para dormir, comer, toilette, etc., o que ninguém acredita que fosse assim, ficariam livres 42 horas; admitindo que pudessem dar 15 vistos por hora, que não davam, teríamos 630 vistos. Daqui para 30 000 vai o infinito. Mas ninguém se questiona perante esta atoarda! Há realmente gente de muita boa fé!» (14)
Aliás, quem, na realidade, introduziu gratuitamente em Portugal os 30 000 refugiados oriundos da fronteira franco-espanhola, foi Francisco Leite Pinto, Presidente da Companhia de Caminhos de Ferro da Beira Alta, por onde circulava o Sud Express que, com a conivência dos espanhóis e a aprovação do Governo português, permitira o transporte clandestino de toda aquela gente vinda da Holanda, da Bélgica, do Luxemburgo e, mais particularmente, de França (15). Esta operação secreta, que teve lugar sem o conhecimento público, é que foi aproveitada pelos panegiristas de Sousa Mendes ao inventarem, nas palavras de Carlos Fernandes, «uma mentira do tamanho do Everest» (16).
Por outro lado, a salvação de 10 000 refugiados judeus atribuída a Sousa Mendes é de tal forma falsa que até um autor judeu como Avraham Milgram pusera a questão nos seguintes termos:
«Para se poder avaliar a disparidade entre o número de judeus que entraram em Portugal e aquele que se pensa ter entrado graças a Sousa Mendes, basta assinalar que, segundo um relatório da HICEM, na segunda metade de 1940, embarcaram em Lisboa 1538 judeus – refugiados que chegaram a Portugal sem vistos para outros países; durante o ano de 1941, embarcaram 4908 judeus com a ajuda da HICEM. A este número há que acrescentar cerca de 2000 judeus que chegaram directamente de Itália, da Alemanha e dos países anexados por esta e que possuíam vistos americanos. Ao todo, durante dezoito meses, de Junho de 1940 a Dezembro de 1941, a HICEM conseguiu fazer embarcar 8346 judeus de Lisboa para países de além-mar (17). A estes números há provavelmente a acrescentar aqueles que passaram por Portugal e que daí saíram por meios próprios. Mesmo assim, é grande a diferença entre a realidade e o mito sobre o número de vistos emitidos por Sousa Mendes. E, todavia, há que frisar que uma boa parte dos judeus que, em 1940, atravessou os Pirenéus para Espanha, e daí para Portugal, o fez graças a Sousa Mendes» (18).
De facto, também existem estimativas exageradas sobre o número de refugiados judeus que passaram por Portugal durante a Segunda Guerra Mundial. O New York Times, por exemplo, afirmava que, «em Agosto de 1940, havia em Lisboa cerca de 11 000 refugiados, 3000 dos quais saíram até Dezembro desse mesmo ano. Um ano depois, o mesmo jornal publicava que, em Novembro de 1939, tinham embarcado no porto de Lisboa cerca de 200 000 refugiados (19). (…) O American Jewisw Year Book também falhou nesta questão. Este anuário, que tinha o cuidado de publicar dados rigorosos durante os anos da guerra, publicou a seguir à guerra dados pouco plausíveis. Eis o que se lê no anuário de 1944: “Depois de Junho de 1940, a entrada tornou-se progressivamente mais difícil, mas estima-se que cerca de cem mil refugiados tenham passado através de Portugal para o hemisfério ocidental, a África, a Grã-Bretanha e a Palestina, entre essa data e o início de 1944. Muitos, se não a maior parte eram judeus” (20). (…) Patrick von zur Mühlen (…) assinalou que Portugal contribuiu para o salvamento de 100 000 refugiados da Shoah (21). O investigador José Freire Antunes foi ainda mais longe. Na introdução ao seu livro Judeus em Portugal. O Testemunho de 50 Homens e Mulheres, reabilita Moses Amzalak que, segundo ele, foi a pessoa que contribuiu para o desenvolvimento da assistência aos refugiados em Portugal, nas suas representações diplomáticas no mundo, e na passagem dos escritórios da Joint para Lisboa (22). Não escondendo a sua simpatia por Amzalak, considera que foi a proximidade ideológica e pessoal entre este e o ditador que o levou a agir em prol do salvamento de dezenas de milhares de judeus: "Se não fosse a dedicação de Amzalak, os 150 000 judeus não teriam passado por Portugal"» (23).
Entretanto, não esqueçamos que a fuga de milhares de refugiados da Europa Central e Oriental após a anexação da Áustria pela Alemanha nazi em 1938, levou a que Portugal se visse naturalmente confrontado com a entrada desses mesmos refugiados num País que atravessava grandes dificuldades na sua restauração económica e social. Por outras palavras, judeus (24) e não judeus, em clara situação de pobreza, procuravam entrar e ficar em Portugal que, compreensivamente, não desejava as repercussões sociais, económicas e políticas num País já caracterizado pelos seus consideráveis índices de emigração. Ora, neste contexto dramático e dificílimo para milhares de pessoas humanas, nas quais se contavam os próprios Portugueses que, além do mais, não eram responsáveis pelo que grassava na Europa de Além-Pirenéus, eis que surge a circular 14 divulgada pelo MNE a 11 de Novembro de 1939, estipulando as seguintes directrizes:
«Os cônsules de carreira não poderão conceder vistos consulares sem prévia consulta do Ministério dos Negócios Estrangeiros: aos estrangeiros de nacionalidade indefinida, contestada ou em litígio, aos apátridas, aos portadores de passaporte Nansen e aos Russos; aos estrangeiros que não aleguem de maneira que o cônsul julgue satisfatórios os motivos da vinda para Portugal e ainda àqueles que apresentem nos seus passaportes a declaração ou qualquer sinal de não poderem regressar livremente ao país de onde provêm. Com respeito a todos os estrangeiros, devem os cônsules procurar averiguar se têm meios de subsistência. [Não deverão ser concedidos] vistos aos judeus expulsos dos países da sua nacionalidade ou daqueles de onde provêm [referência ao J vermelho nos passaportes dos judeus]; aos que, evocando a circunstância de virem embarcar num porto português, não tenham nos seus passaportes um visto consular bom para entrar no país a que se destinam, ou bilhete de passagem por via marítima ou aérea, ou garantias das respectivas companhias. Os cônsules terão porém muito cuidado em não impedir a passagem por Lisboa de passageiros que se destinem a outros países e especialmente carreiras aéreas transatlânticas ou para o Oriente. Pelo Ministro: Luiz F. Sampayo» (25).
Uma outra razão para a restrição de vistos a refugiados, alguns dos quais exigiam a consulta prévia a Lisboa, resultara «dos protestos espanhóis e ingleses, estes apavorados com a perspectiva da entrada de espiões, sabotadores, etc., em período de guerra total (a chamada 5.ª coluna), e o perigo de irritar Hitler» (26). Mas até nisto, Avraham Milgram, que acusa Portugal – «o país da Inquisição» – de não aproveitar o seu potencial estratégico face à Alemanha para salvar judeus (27), não se coíbe de atacar o governo de Salazar (28), o MNE, o Ministério do interior e a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) por serem «inflexíveis, legalistas e revelarem por vezes preconceitos anti-semitas» (29). Estamos assim perante a falsificação da verdade histórica, até passível de ser desmentida por historiadores estrangeiros como o alemão Patrick von zur, ao demonstrar que a política de Portugal face aos judeus não teve, por certo, motivações anti-semitas (30).
Demais, o trecho significativo que se segue confirma a ampla ausência de anti-semitismo no alegado «país da Inquisição»:
«O fracasso comercial da propaganda anti-semita em Portugal mostra-nos até que ponto o ódio a Israel era irrelevante como manobra política naquele país. A não-aceitação do anti-semitismo dos escritos de Sardinha, de Saa e dos editores dos Protocolos dos Sábios de Sião, em 1923, causa surpresa, em particular porque nos anos de 1920, e mais ainda nos anos de 1930, os judeus eram vítimas de hostilidade e xenofobia na maior parte dos países da Europa. Naquela época ouvia-se no mundo gritos nacionalistas, xenófobos e anti-semitas bastante estridentes. Na Europa Oriental e Central o elemento anti-semita tinha muito relevo na política, na cultura e na sociedade. O anti-semitismo cumpria uma função central nos discursos públicos, nas campanhas eleitorais e, em particular, na mobilização das multidões sob as bandeiras dos movimentos, partidos e associações anti-semitas, nacionalistas, antiliberais e antidemocráticas.
No prefácio ao seu livro sobre o anti-semitismo, Adolfo Benarus afirma que não foram os acontecimentos anti-semitas no seu país que o levaram a tratar do anti-semitismo, mas a injustiça e as catástrofes de que os judeus eram vítimas em países estrangeiros (31). O ódio a Israel diz, era um fenómeno antigo que não desaparecera nem com as conversões forçadas dos judeus ao cristianismo nem com a sua assimilação, como aconteceu na Alemanha. Explica que os resultados da emancipação em muitos países não garantiam o fim do anti-semitismo, e a Alemanha era um exemplo disso (32). Ao referir-se a Portugal, Benarus transmitiu aparentemente não apenas a sua opinião, mas a da maioria dos judeus do país, que tinham consciência de que a igualdade na lei obtida e garantida pelas constituições de 1911 e 1933 os defenderia: “Hoje a igualdade é absoluta, ou antes, os judeus dentro da sociedade portuguesa são muitas vezes objecto de atenções e até de carinho. É o resultado de uma concepção mais larga da Justiça e da Tolerância, que, partindo de governos, parece ter atingido todas as classes sociais ” (33). Segundo ele, não havia anti-semitismo em Portugal devido às características superiores do homem português que não conhece o ódio aos estrangeiros. Pelo contrário, o homem simples revela interesse pelos estrangeiros, respeita-os e acolhe-os no seu seio. Paralelamente à confiança no homem simples, Benarus admirava Salazar e o seu regime por ter conseguido matar o anti-semitismo à nascença (34). Mais do que a ausência de anti-semitismo, estas palavras exprimem uma identidade da elite judaico-portuguesa com o seu país e dirigentes» (35).
Quer dizer: por mais evidências que se apresentem de que os Portugueses em geral não são anti-semitas, mesmo quando tais evidências são manifestamente reconhecidas por certos e determinados judeus, tudo isso, supostamente, não passa de um oportunismo da elite judaico-portuguesa identificada com Portugal e a sua classe dirigente. Nestes termos, estamos, pois, perante o que se nos afigura ser um certo nacionalismo de matriz judaica que é, porventura, o mais exclusivista de todos os nacionalismos à face da terra (36). No fundo, é como se um povo que se diz eleito por Deus de alguma forma preconizasse aos outros povos que se sacrifiquem e até por ele morram caso necessário.
Houve, sem dúvida, casos particulares de anti-semitismo como o de António Sardinha, que via nos cristãos-novos o inimigo interno histórico da raça portuguesa, ou até mesmo o de Mário de Saa que, em A Invasão dos Judeus (1925), afirmava que «entrar no Parlamento português é como entrar numa sinagoga», o que, já de si, também permite explicar a sua veemente oposição ao plano de 1912-1913 para a colonização judaica em Angola (37). E por falar em Angola, não fora por acaso que Oliveira Salazar acompanhasse de perto as ambições da Itália e da Alemanha relativas a territórios coloniais de outros países, nomeadamente os de Portugal. E assim via como até a Polónia e a Roménia cobiçavam os territórios ultramarinos portugueses em África e na Ásia (38).
Deste modo, face à prudente vigilância de Oliveira Salazar relativamente ao Império Português, não há nada como encarar o seguinte trecho:
«No período que se seguiu à conferência de Evian, Salazar foi posto ao corrente do interesse crescente por parte de diversos sectores em encontrar uma solução para o problema dos refugiados nos territórios coloniais portugueses em África. Quando o Comité Intergovernamental para os Refugiados se reuniu em Agosto de 1938 em Londres, os jornais ingleses escreveram sobre a possibilidade de instalar um grande número de judeus em Angola (39). Na discussão efectuada no Parlamento britânico sobre a questão dos judeus, o delegado V. A. Cazalet sugeriu a possibilidade de adquirir territórios em Angola (40). Nesse mesmo dia, o chefe do movimento nacional-socialista da Holanda publicou um artigo no qual propunha solucionar o problema dos refugiados judeus através da sua instalação nas colónias britânicas, francesas, holandesas, portuguesas e belgas, proposta que, segundo as próprias palavras, fez sorrir o cônsul português em Haia (41). A forma como todos mencionavam Angola como solução para o estabelecimento dos refugiados judeus, sem consulta, cooperação ou coordenação com o governo português, provocou uma ira crescente nos meios das representações diplomáticas portuguesas na Europa, no MNE em Lisboa e, obviamente, no presidente do Conselho de Ministros, Salazar» (42).
Contudo, Salazar, já antes de 1938, se antecipara às ambições territoriais de certas e determinadas potências, consoante o seu próprio testemunho:
«Passadas poucas semanas sobre uma arremetida, nova tempestade de boatos se desencadeou acerca das colónias portuguesas. Gerou-se em Basileia com a anterior, correu as capitais da Europa e deu a volta ao mundo porque a sentimos na América do Sul e na África. Como havíamos desmentido a venda, aparece a atoarda agora sob a forma de arrendamento e com notáveis pormenores: contrato por 99 anos que deixava intacta a soberania portuguesa; citam-se as firmas alemãs interessadas e os trabalhos que vão empreender; intensificar-se-á a produção de Angola para pagar o armamento adquirido para o Exército; o Chanceler no seu discurso de 30 do corrente dará mesmo público conhecimento do acordo realizado. O jornalista de Basileia, interrogado acerca da notícia, garantiu a sua "rigorosa exactidão", pois a tinha da melhor fonte; em certos meios diplomáticos e políticos, já certamente informados, tomaram-se atitudes confirmativas; e jornais ingleses, com o sentido apurado da precisão, escreveram que Portugal já tinha desmentido a venda de colónias, mas o arrendamento a longo prazo era negócio, quer dizer, podia ser considerado. No meio de tudo, o Governo português absolutamente ignorante de tal acordo.
Por ordem de Lisboa os nossos Ministros no estrangeiro tinham desmentido da primeira vez e desmentiram também desta, embora convicta a nossa Chancelaria da inutilidade de tais declarações. Para a hipótese de novos desmentidos, tem de pensar-se que muitos Governos, pelo menos em casos que não lhes interessem, se encontram perante a existência legal da liberdade de imprensa, e é de certo modo desprimoroso para os representantes de Portugal verem levantar-se por sistema, em face dos seus desmentidos categóricos acerca de negócios coloniais, as insistências de jornais que se julgam mais entendidos no assunto que o Governo português. Demais há sempre processo de salvar uma tal ou qual delicadeza protocolar: como desmentimos o arrendamento de Angola a 99 anos, entende-se que não fica desmentido o arrendamento a 98 anos e 11 meses» (43).
E mais adiante, prossegue Oliveira Salazar:
«Seja qual for o interesse que para os dois países tenham contratos de compensação; sejam quais forem as possibilidades das empresas alemãs de realizar grandes obras de fomento no continente ou nas colónias portuguesas onde têm trabalhado e trabalham ao lado de empresas dinamarquesas, holandesas, francesas, italianas ou espanholas; sejam quais forem as possibilidades económicas que cada um anteveja, sonhos que arquitecte e mesmo as responsabilidades passadas da Alemanha no tocante a projectos sobre as colónias portuguesas de África, a verdade é que sobre os factos presentes, ao alcance da observação de todos, não podem enxertar-se a cada passo atoardas da sua venda ou arrendamento, tanto mais que se apresentam como exigindo o acordo do Governo português. Mais razoavelmente filiaríamos tais campanhas no actual estado político da Europa. Só não sei se com elas mais se pretende atingir Portugal se combater a Alemanha» (44).
E, por fim, remata patrioticamente o maior Estadista português do século XX:
«O desconhecimento das coisas portuguesas está sem dúvida na base da expansão de notícias falsas e da credulidade geral; mas quem cria e alimenta os boatos é perfeitamente conhecedor das situações e dos problemas, e sabe como deve actuar. A situação de Portugal na Península hispânica, a sua posição política e moral contra o comunismo, os seus vastos interesses e direitos coloniais, bem alicerçados e definidos, a maneira como entende conduzir os seus destinos, dão-nos neste momento preciso, relevo entre as Potências. E não é que pretensiosamente nos ponhamos em bicos de pés para nos verem; outros se sentem obrigados a atribuir-nos importância real. E por isso alguns nos consideram importunos e incómodos, e nos acusam perante o mundo, e nos promoveram a revolta dos marujos, e nos presentearam com explosão de bombas, e maquinam incessantemente contra nós, e sem cessar nos agridem e levantam boatos sobre as nossas colónias que, a traduzirem a verdade dos factos, só demonstrariam impotência ou insensibilidade patriótica.
Mas tudo é inútil. Alheios a todos os conluios, não vendemos, não cedemos, não arrendamos, não partilhamos as nossas colónias, com reserva ou sem ela de qualquer parcela de soberania nominal para satisfação dos nossos brios patrióticos. Não no-lo permitem as nossas leis constitucionais; e, na ausência desses textos, não no-lo permitiria a consciência nacional» (45).
Entretanto, é também sabido que F. D. Roosevelt procurara resolver os problemas dos refugiados judeus mediante a criação de uma entidade política judaica em Angola. Contudo, um tal empreendimento indica que os americanos ignoravam de todo que Salazar jamais permitiria a venda ou a transferência de uma parte do Império Português para o devido efeito. Assim, apostavam «na criação de uma espécie de protectorado que traria a Portugal benefícios» de utilidade financeira, económica e comercial que seria muito superior «aos lucros que o país teria se continuasse a manter Angola sozinho» (46).
No fundo, os americanos não compreendiam verdadeiramente com quem estavam a lidar, na medida em que sempre revelaram uma enorme dificuldade em conhecer outras culturas, povos e nações do mundo. E daí a razão por que Oliveira Salazar não confiava nos americanos e na sua nação tipicamente moderna. Por conseguinte, o plano americano caíra em saco roto, até porque a Inglaterra, cuja política externa procurava apaziguar os árabes e reduzir as suas forças no Mediterrâneo Oriental, queria «continuar de boas relações com Portugal e não abalar o status quo na Península Ibérica» (47).
Quase um triénio depois, Salazar, na qualidade de titular da pasta dos Negócios Estrangeiros, entre as demais de que então se ocupava com grande sacrifício e abnegação pessoais, assistia ao começo da mais brutal, violenta e destrutiva guerra mundial do século XX. E nisto, perante a onda de refugiados vindos da Europa Central e Oriental, eis senão o «messianismo salvífico» do cônsul Sousa Mendes personificado num acto de loucura delirante: «Vou salvá-los todos» (48). Todavia, as consequências desse acto foram, precisamente ao contrário do que os panegiristas de Sousa Mendes apregoam, atenuadas por quem mais se tem atacado na campanha interna e internacional em voga: António de Oliveira Salazar.
Senão vejamos:
«O que Aristides fez – e eu abstenho-me de o julgar – em Bordéus e Bayonne, em Junho de 1940, era passível de 3 crimes, a saber: desobediência, abuso de poder e concussão. O MNE entendeu mover-lhe apenas um processo disciplinar por desobediência, em vez de o fazer acusar daqueles três crimes, o que, desde logo, é bonito e oposto a uma perseguição.
Depois, concluído o processo, foi proposta ao seu Ministro quer a degradação de categoria quer mesmo a demissão. Salazar ignorou completamente a proposta conclusiva do procedimento disciplinar, porque, a meu ver, compreendeu que Aristides tinha grandes atenuantes. Por isso, em vez de lhe dar qualquer pena disciplinar, e muito menos as propostas, foi para uma solução diferente, que consistia numa faculdade do Ministro (vigente em França, Espanha, Itália e em muitos outros países, para eventual aplicação aos diplomatas ou cônsules que se julgava não estarem em condições de desempenhar convenientemente as suas funções), a disponibilidade fora do serviço por determinado período, podendo, quando o Ministro assim o entendesse, ser o diplomata ou cônsul chamado novamente ao serviço activo. Foi assim que Salazar, sem proposta de ninguém, coloca Aristides fora do serviço por um ano, e aguardando aposentação findo ele, já que Aristides ainda não estava próximo dos 70 anos, para ser aposentado com todo o vencimento. Não o aposentou.
Quer dizer: Aristides não foi punido disciplinarmente. E também não foi excluído da carreira consular. Apenas se lhe interrompeu o seu exercício. E daqui à legitimidade de Aristides requerer o regresso à actividade, que, para quem tiver cinco réis de senso, não pode deixar de concluir que nunca mais poderia ser a colocação como cônsul fosse onde fosse no estrangeiro. Até porque Aristides estava gravemente doente, física e psicologicamente.
Aguardando aposentação, ganhava, não trabalhando, exactamente o mesmo que ganhavam os seus colegas (…), trabalhando.
Foi esta uma perseguição quer dos serviços do MNE quer de Salazar?!» (49)
A única exoneração por decreto sofrida por Aristides fora a de cônsul de Portugal em Bordéus, que o próprio quis teimosamente anular sem nenhuma razão que o justificasse (50), até porque se «tivesse praticado todos os actos que Rui Afonso e outros, incluindo o filho Sebastião, dizem que praticou, teria cometido cinco crimes: desobediência, abuso de poder, concussão, usurpação de funções e roubo de passaportes. Mas o MNE não o acusou de nada disto. Apenas de desobediência disciplinar.
É isto perseguição?» (51)
De modo nenhum. Mas os detractores da verdade aí estão, servindo-se, para o efeito, da mentira sistemática nos mais variados aspectos, entre os quais ressaltam à vista os que se seguem:
1. «Cerca de 10 de Julho de 1940, Aristides e Angelina chegaram a Cabanas num soberbo Dodge Brother descapotável, de cor vermelha. O senhor cônsul ainda tinha uma bela figura, embora as últimas semanas o tivesse esgotado. Mesmo que, a 4 de Julho, Salazar tivesse ordenado a abertura de um processo disciplinar contra ele» (52);
2. «Se Aristides não conhecia Lisboa, ainda conhecia menos Salazar e o regime que ele havia instaurado. Ao deixar Bordéus, parecia persuadido de que ia ser recebido pelo chefe do Governo e que poderia explicar-lhe as razões que o tinham levado, em nome da moral cristã, que lhes era comum, a salvar tantas pessoas.
Dir-lhe-ia que também tinha salvo a honra do País e que um dia os seus actos seriam úteis aos interesses portugueses. Em resumo, iria apelar aos sentimentos cristãos de Salazar, à sua generosidade, mas também à razão e àquela que pensava ser a visão do mundo do ditador.
Escreveu a Salazar. Afirmando-se convencido de ter cumprido o seu dever para com a pátria e de não ter feito nada para desmerecer a confiança do Presidente do Conselho, solicitava que este o recebesse em audiência e confessava-se antecipadamente grato pelo favor.
O ditador de botas com atacadores nunca quis recebê-lo.
Mais, fez tudo para o esmagar.
Aristides de Sousa Mendes não tinha compreendido o essencial do carácter do seu antigo condiscípulo de Coimbra: o gosto maníaco, imoderado, doentio, pela ordem. Que lhe importavam os milhares de pessoas salvas por Sousa Mendes, os apelos à sua fé cristã; que importava isso quando comparado com um crime maior: a não obediência a uma directiva governamental. Nem em 1940, nem em 1945, nem em 1950, Salazar jamais compreendeu a importância moral, mas também política, da acção de Sousa Mendes. Apenas viu nela um acto de desobediência.
E a desobediência tinha de ser punida» (53);
3. Salazar «tinha um talento especial para lidar com os rebeldes que agiam de acordo com a sua consciência, afastando-os de funções públicas. Daí o (…) ter-se vingado de Aristides de Sousa Mendes.
(…) Aristides de Sousa Mendes foi julgado por ter infringido as formalidades relativas à proibição de entrada de determinadas categorias de estrangeiros, incluindo judeus, antes da invasão de França pelos Alemães e depois desta. Foi julgado, humilhado e demitido das suas funções consulares, acabando por ficar sem fonte de rendimentos e pobre…» (54);
4. «O regime continuava a persegui-lo com todo o género de manobras burocráticas. Salazar nunca lhe quis perdoar, embora soubesse que lhe bastava dar uma ordem para que Aristides pudesse acabar tranquilamente os seus dias. O rancor daquele homem era imortal!» (55)
Enfim, eis apenas alguns dos exemplos de como se deturpa, omite e desvirtua a verdade histórica sobre A. de Sousa Mendes e seu alegado e implacável perseguidor. E ainda para mais quando é «de notar que não houve sarilhos com outros cônsules na Europa, incluindo Bayonne, na fronteira franco-espanhola. Porquê? Já que também lá havia judeus. Ou só havia judeus em Bordéus?
Mais do que Aristides, protegeram concretamente judeus vários diplomatas e cônsules portugueses, a começar pelo ministro F. Calheiros e Menezes, então já na Turquia.
De colaboração com o Núncio Papal, Giuseppe Roncalli (depois Papa João XXIII), e, deve notar-se, com o chefe da Legação alemã em Ankara, nada menos que Franz von Papen, ali de 1939 a 1944, antes chanceler e depois ministro dos Estrangeiros de Hitler, transferiu para Portugal centenas de crianças judias e muitos judeus adultos.
Também Sampaio Garrido e Branquinho, assim como o cônsul honorário em Milão, Giuseppe Magno, e outros ainda, como, em muito menor grau, Emile Gissot, em Toulouse (…) protegeram directamente muitos judeus.
(…) A actividade humanista e notável destes homens tem sido esquecida ou minimizada injustamente, começando agora, e envergonhadamente, a ser referida. Porquê só agora? Por uma razão muito simples: não constituíam matéria política contra Salazar, que é o que tem interessado aos mitologistas de Aristides. Não foram os judeus que iniciaram o movimento de mitificação de Sousa Mendes, mas sim os políticos portugueses e americanos, com Bessa Lopes, Rui Afonso, Tony Coelho e Jaime Gama à cabeça.
O problema para estes figadais anti-salazaristas retrospectivos é que, enquanto, em 1940, nenhum judeu estava em perigo de vida, ou até de prisão, em França, depois do armistício, porém, em 1944, em Budapeste, Sampaio Garrido e Branquinho salvaram efectivamente centenas de pessoas de serem deportadas para os campos de concentração com as consequências daí decorrentes» (56).
Ainda assim, a mitificação de Sousa Mendes começou por ter o apoio das autoridades israelitas com base numa pretensa investigação levada a cabo pelo Centro Vashem de Jerusalém, que concede, em casos alegadamente estudados e provados, «o título de Gentio Justo a todos os não judeus que salvaram judeus durante a guerra» (57). Ora, nós não sabemos que investigação foi essa para que, a 21 de Fevereiro de 1961, fosse plantada uma árvore no Museu de Yad Vashem – mais particularmente na Álea dos Justos – em memória de Aristides de Sousa Mendes. E muito menos compreendemos como se poderá sustentar uma campanha internacional que na actualidade se destina a angariar 2000 vistos concedidos por Aristides enquanto cônsul em Antuérpia, visto que, como reconhece o embaixador Carlos Fernandes, tudo aponta para mais uma descarada mentira que oculta o facto de o cônsul de Portugal ter saído «de Antuérpia em meados de 1938, dois anos antes do começo da 2.ª grande guerra no Ocidente, com a invasão da Holanda, Bélgica, Luxemburgo e França, em 10 de Maio de 1940, pelas tropas de Hitler» (58).
Em Portugal, a mitificação de Aristides parece ter começado em 1976, com um diplomata de cinquenta e nove anos, Nuno Álvares Adrião de Bessa Lopes, que teria proposto a reabilitação do cônsul a uma comissão para a reintegração de funcionários do Estado, que a recusou (59). E é então que entra em cena Melo Antunes que terá ordenado que se estudasse o caso com vista à criação de uma campanha anti-salazarista pós-abrilina. Nisto, o testemunho do embaixador Carlos Fernandes não deixa margem para dúvidas, uma vez que, na qualidade de dirigente dos Serviços Jurídicos do MNE no Verão de 1981, deu com Bessa Lopes no seu gabinete em circunstâncias por ele próprio descritas:
«Trazia o Dr. Bessa Lopes na mão, sem qualquer processo, um papel de informação, em que fazia considerações laudatórias hiperbólicas sobre Aristides, acusando Salazar de o perseguir e de o ter privado de vencimentos, atirando-o para a miséria. Fiquei perplexo, pois isto não condizia com os conhecimentos que eu tinha de Sousa Mendes e do seu último processo, adquiridos muitos anos antes, em 1948. Bessa Lopes não me disse então que o embaixador Medina se tinha recusado a homologar a sua pseudo-informação, mas queria que eu a homologasse. Omitia-me um facto muito importante.
O Dr. Bessa Lopes nunca conhecera nem lidara com Sousa Mendes – pelo menos foi o que então me disseram –, e era considerado no MNE por ser da extrema-direita, sem carreira brilhante mas com boa classificação em Ciências Jurídicas da Universidade de Coimbra. Tinha até apresentado como estudo para o seu concurso de acesso a ministro plenipotenciário, que já era, um trabalho sobre o apartheid na República da África do Sul, onde estivera como cônsul, defendendo esse apartheid, ao contrário da política tradicional do MNE, que era e é contrária à discriminação racial.
Disse-lhe que a sua proposta de informação, que ninguém lhe mandara fazer, sendo assim da sua exclusiva iniciativa – o que não era normal no MNE – me surpreendia de tal maneira que eu iria estudar o processo Sousa Mendes, que não conhecia, e depois o chamaria.
Pedi logo o processo. Estudei-o, verificando que já lhe faltavam algumas peças, e conclui que a proposta de informação de Bessa Lopes era, sobretudo, um tremendo ataque a Salazar, o que voltou a surpreender-me profundamente, vindo de quem sempre me constara ser direitista, e um embuste pretensamente a favor de Sousa Mendes.
Alguns dias depois, chamei Bessa Lopes, e disse-lhe que não lhe homologaria a informação, por considerá-la desonesta, e que o dispensaria imediatamente de trabalhar nos serviços que eu dirigia – vim então a saber que o meu colega Medina já tinha recusado homologar-lhe aquela proposta de informação. Não o despediria formalmente, dado o nosso anterior relacionamento – eu até os tinha recebido na minha Embaixada no México, a ele e à mulher –, mas impunha-lhe que fosse falar de urgência com o Secretário-Geral e lhe pedisse para mudar de serviço, o que aconteceu.
Bessa Lopes, após o 25 de Abril, ele, e mais alguém da sua família, teriam virado comunistas – não sei se assim foi ou não; do que não há dúvida é que mudou radicalmente de orientação política. Terá o ataque a Salazar sido a prova de admissão, ou de confirmação, de Bessa Lopes no partido político extremista de Álvaro Cunhal? Houve no MNE quem me garantisse que sim. Eu, contudo, não sei. Mas, se isto corresponder à verdade, que miséria humana, meu Deus! Como é possível que se baixe tão baixo?
Eu só menciono esta hipótese porque não encontro explicação racional, ou moralmente aceitável, para o que Bessa Lopes fez, e quer tenha sido ele ou não quem voltou a pôr o seu papel no dossier. Do que também não há dúvida é que alguém o colocou lá, de forma irregular e sub-reptícia.
Teve azar em dar com o embaixador Medina e comigo. De contrário, teríamos um documento oficial do MNE a consagrar as maiores barbaridades a respeito de Salazar, de quem é legítimo gostar ou não gostar, concordar ou não com a sua política, mas já não é legítimo atacá-lo injustamente.
Mandei retirar o papel do processo (dossier), porém, ou não o retiraram, o que duvido, dada a confiança que os meus colaboradores administrativos me mereciam, designadamente, a arquivista, a competente e moralmente impecável Alice, ou alguém voltou a colocá-lo lá, pois assisti, há anos, à invocação dessa pseudo-informação por um dos netos de Aristides, como fundamento indiscutível do martírio sofrido por este cônsul às mãos ditatoriais de Salazar.
E assim se faz a história!» (60)
Mas há mais: esta campanha interna e internacional a favor de Aristides não só teve e continua a ter motivações de índole política, mas também de ordem económico-financeira. Daí, pois, o caso da filha Joana, que tentou, durante mais de 20 anos, «obter uma indemnização, por causa da injustiça que Salazar teria praticado contra o pai, e, o que é certo é que, depois de mover céus e terra, conseguiu-a, embora não a viesse a receber directamente» (61). Há também o caso de um dos filhos mais novos de Aristides, João Paulo, que «acabou por ser o factor decisivo do início internacional de apoio à tese da salvação dos judeus, levando Tony Coelho, que então dominava a Câmara dos Representantes nos USA, a encabeçar, a sério, ali, uma campanha entusiasta a favor do protector, se não salvador, de milhares de judeus, em perigo de vida.
E porquê este apoio delirante de Tony Coelho?
Porque queria o suporte do poderosíssimo lobby judaico nos USA para as suas ambições políticas, que terminaram na Câmara dos Representantes porque, politicamente, morreu cedo. Meteu-se em aventuras financeiras, e, como consequência, morreu politicamente, embora continue fisicamente vivo» (62).
E como se não bastasse, uma vaga de procedimentos maioritariamente ilegais se sucederiam para estabelecer uma das maiores mentiras impostas ao mundo em geral, e ao povo português em particular, a saber:
1. A primeira cerimónia oficial de reabilitação de Aristides levada a cabo por Mário Soares, então Presidente da República Portuguesa, na Embaixada de Portugal em Washington (24 de Maio de 1987), condecorando-o, a título póstumo, com a Ordem da Liberdade. E tudo sob a pressão dos «lobbies políticos, português e americano (Tony Coelho e as suas delegações do Congresso Americano)» (63);
2. A reintegração de Sousa Mendes como ministro plenipotenciário de 2.ª classe que a Assembleia da República votou por unanimidade a 13 de Março de 1988 (64);
3. A homenagem em Bordéus, num Domingo, a 29 de Maio de 1994, rendida a Sousa Mendes pelo Presidente da República, Mário Soares, e pela esposa Maria Barroso em conjunto com as autoridades da cidade: o prefeito Landouzy, Claudine Geissmann, co-presidente do B’nay Brith na capital girondina, Alexis Banayan, presidente do consistório, Dmitri Lavroff, adjunto do presidente da Câmara, e os embaixadores de Portugal e de Israel (65);
4. A indemnização aos filhos de Aristides baseada numa suposta demissão ou aposentação compulsiva (66). No fundo, um falso humanitarismo destinado a encobrir interesses particulares à custa de uma substancial verba obtida pelo Estado a título de indemnização, quando, na realidade, «o Governo de Salazar agiu na mais perfeita legalidade» (67).
Consequentemente, a mentira é tão vasta, iníqua e traiçoeira que até foi criada uma banda desenhada – Bordeaux dans la tourmente, de Jocelyn Gille – com várias páginas consagradas a Aristides de Sousa Mendes (68). Por outro lado, em Outubro de 1996, a companhia do Teatro de Portalegre foi ao ponto de representar em Bordéus a peça Aristides, O Cônsul que Desobedeceu, da autoria de António de Moncada de Sousa Mendes, neto de Aristides (69). E «no Neguev, há uma mata com 10 000 árvores [alusão ao número de judeus supostamente salvos pelo cônsul] que tem o nome de Sousa Mendes, o mesmo acontecendo com uma praça em Telavive. Em Portugal há agora oito ruas Sousa Mendes e uma escola secundária, na Póvoa de Santa Iria, nos arredores de Lisboa. Parece até que se pensou em dar o seu nome à nova ponte sobre o Tejo [Ponte Vasco da Gama], inaugurada em 1998. Em Montreal, num parque infantil, há uma placa que conta a história deste grande homem» (70).
Neste contexto assaz delirante, até o universitário Adriano Moreira, em entrevista directa a José-Alain Fralon, afirmou que Sousa Mendes «atacou um princípio até então absoluto: a legitimidade de origem tem de ser obedecida. O Tribunal de Nuremberga estabeleceu que somos responsáveis perante os princípios e que não podemos ir contra os valores humanos. A grandeza de Sousa Mendes foi ter obedecido aos valores da humanidade» (71). E não menos delirante foi o facto de José Miguel Júdice ter propalado uma grandíssima atoarda, para não dizer uma inaudita judiaria quando entendeu, no âmbito do programa televisivo da RTP1 - «Os Grandes Portugueses» (72) –, defender levianamente o «Wallenberg português» sem apresentar as documentadas provas dos supostos factos aventados (73). Logo, caso nos venham dizer que o Grande Português escolhido se explica com base num mero protesto da maioria dos Portugueses quanto à situação de calamidade a que os políticos do pós-25 de Abril conduziram Portugal, diremos, por contrapartida, que a principal razão encontra-se plenamente explícita nas palavras do embaixador Carlos Fernandes:
«Ele – Oliveira Salazar – via as consequências das consequências das consequências» (74).

Notas:
(1) Saliente-se desde já que o livro do embaixador Carlos Fernandes se apresenta como um desmentido, capítulo por capítulo, do livro panfletário de Rui Afonso, intitulado Aristides de Sousa Mendes, Um Homem Bom. Eis as palavras do embaixador: «(…) eu não vou escrever a favor ou contra Sousa Mendes, e, por isso, nem vou comentar aqui muitos dos livros que já se escreveram sobre o cônsul Aristides nem o filme que por aí agora se propagandeia, ou a vergonha da endoutrinação imposta pelo Ministério da Educação às crianças do Ensino secundário oficial. Apenas comento este livro de Rui Afonso, e já chega» (in Aristides de Sousa Mendes: a Verdade e a Mentira, edição de autor, 1.ª edição, 2013, p. 23).
(2) José-Alain Fralon, Aristides de Sousa Mendes: um Herói Português, Editorial Presença, 1999. 
(3) Ibidem, p. 18.
(4) Acerca de Franco Nogueira e de Henrique Veiga de Macedo, note-se esta passagem mui esclarecedora da autoria de Carlos Fernandes: «(…) Porque é que os portugueses são um povo estranho, inconstante, muito moody, e tão ingrato como os deuses. Reparem que, sendo, no tempo de Salazar, quase toda a gente salazarista, com muitos milhares de políticos a ele favoráveis, depois de morto e mudado o regime 180 graus, salvo Franco Nogueira, Veiga de Macedo, e poucos mais, pode dizer-se que ninguém apareceu a defendê-lo, mesmo quanto às mais evidentes mentiras, e ainda ninguém o fez quanto às monstruosas atoardas do caso A. de Sousa Mendes, em que Salazar é persistentemente muito mal tratado – é o pendant do bom (Aristides) contra o mau (Salazar).
Não deixa de ser curioso, por estranho, que tenha sido preciso que alguém independente, sem a menor ligação política a Salazar, e até olhando com simpatia para Sousa Mendes, movido apenas pelo amor da verdade, e, porque, além de cansado de ouvir e ler tanta despudorada aldrabice, foi provocado, concretamente, para o fazer, decidisse vir a público enfrentar um lobby político e de interesses poderosíssimos, para repor as coisas nos seus devidos termos» (ibidem, pp. 128-129).
(5) Cf. Franco Nogueira, Salazar, Vida e Obra, I, Atlântica Editora, Coimbra, pp. 6-8. Por outro lado, é Rui Afonso quem, no intuito de achincalhar Oliveira Salazar, insinua que «vivia como padre, e, “como muitos padres desse tempo, tinha uma governanta que era ao mesmo tempo amante. Ela ficou com ele até ao fim da vida nessa dupla função” (…).
Esta infâmia e mentira histórica, acrescidas da propalação do boato de alfurja de que D. Maria e Salazar teriam casado secretamente no leito da morte, revela quem é Rui Afonso». E assim o revela porque «repete esta atoarda, na edição que os editores dizem ser muito cuidada, de 2009, que é a única que eu, já muito enjoado estou comentando, quando já toda a gente sabe em Portugal que D. Maria (…) morreu virgem, porque a isso foi dada grande publicidade, depois de competente exame médico.
Esta deriva vergonhosa não teria qualquer significado especial se não fizesse parte do programa de achincalhamento de Salazar, na pretensão de assim valorizar Sousa Mendes. Ora, com lama não se valoriza ninguém. Suja-se» (Carlos Fernandes, op. cit., pp. 169-170).
(6) José-Alain Fralon, op. cit., p. 31.
(7) «(…) Aristides, cônsul em Antuérpia, não vivia lá. Até 1936, vivia em Lovaina, cidade universitária tradicional, onde alguns dos filhos estudavam. E para mim, tudo bem. Não era obrigado a viver em Antuérpia. Estava acreditado como cônsul geral em todo o território belga» (in Carlos Fernandes, op. cit., p. 54).
(8) José-Alain Fralon, op. cit., p. 31. Neste aspecto, vejamos ainda o seguinte trecho: «A sua transferência para Bordéus, em 1938, depois dos 9 anos de Antuérpia, além de não ser do seu agrado, complica-lhe a vida financeira de forma irremediável, já que Bordéus, embora sendo também um porto, a ele arribavam poucos barcos portugueses, não tendo por isso rendimento que pudesse comparar-se com o de Antuérpia, que o habituou mal, levando-o a despesas exorbitantes na sua casa de Cabanas de Viriato, casa de aldeia, sem terras anexas que as justificassem» (in Carlos Fernandes, op. cit., p. 46). Mais: o cônsul Aristides costumava ausentar-se dos consulados que regia sem a devida autorização, «porque não queria passar a gerência do Consulado». Ou seja: «a motivação – segundo confidenciara o conselheiro Dr. Rebêlo da Silva a Carlos Fernandes – teria que ver com os conhecidos e crónicos problemas financeiros de Aristides» (in op. cit., p. 47). Demais, é igualmente sabido que Aristides teria «pedido e obtido um empréstimo avultado do gémeo César, em fins de 1933», a quem, aliás, confessara que já devia ao Consulado 20.000 francos. «E um mês depois, em carta de 20 de Janeiro de 1934, diz-lhe que vai precisar de um novo empréstimo, esperando que o MNE não lhe complicasse a vida (por usar dinheiros do Estado)» (in op. cit., p. 48).
(9) José-Alain Fralon, op. cit., pp. 42-43.
(10) Ibidem, pp. 64-65. «Do memorando inglês, datado de 20/6/1940, entre outras coisas, consta o seguinte: “O cônsul de Portugal em Bordéus protela para fora das horas de expediente todos os pedidos de vistos, e cobra por ele taxas extraordinárias”. “Pelo menos num caso foi ainda o interessado convidado a contribuir para um fundo português de caridade antes de ser-lhe concedido o visto”» (in Carlos Fernandes, op. cit., p. 62). Aliás, não era a primeira vez que Aristides pleiteara para fins caritativos, conforme se segue: «(…) em 1923, quando servia em São Francisco, Sousa Mendes entrou em choque com a comunidade portuguesa local ao pedir uma contribuição para uma instituição de caridade portuguesa, que os luso-americanos se negaram a pagar. O assunto, que não foi comunicado ao MNE, chegou à imprensa sob forma de insultos, e aos ouvidos do MNE, que o considerou erro grave…» (cf. Avraham Milgram, Portugal, Salazar e os Judeus, Gradiva, 2010, p. 102).
(11) É Avraham Milgram quem nos diz que foi um advogado de Nova Iorque, Harry Ezratty, quem escrevera que Sousa Mendes «salvara 30 000 refugiados, dos quais 10 000 judeus» e que, «desde então, jornalistas e investigadores têm repetido o número sem confirmarem a sua autenticidade». E mais adianta que «Ezratty baseou-se na informação que lhe foi transmitida por Ilja Dijour, representante do HIAS em Lisboa, para o número de 10 000 judeus entrados em Portugal durante a guerra» (in op. cit., p. 149).
(12) Carlos Fernandes, op. cit., p. 112. Curiosamente, Avraham Milgram também nos diz o seguinte: «um exame da lista de nomes e de vistos que Sousa Mendes emitiu a judeus e não-judeus nos meses de Maio-Junho de 1940 revela que o número de vistos é muito mais reduzido do que aquele que a literatura aponta – o que de modo algum diminui a grandeza do seu feito. Segundo as listas de vistos do consulado de Bordéus, Sousa Mendes emitiu 2862 vistos entre 1 de Janeiro e 22 de Junho de 1940. A maioria – 1575 – foi emitida a 11 e 12 de Junho, nos últimos dias como cônsul em Bordéus. Nunca saberemos com rigor quantos vistos foram concedidos nas secções consulares de Baiona e Hendaia, por onde passou depois de ter sido chamado a regressar após a sua desobediência, porque nesses locais emitiu dezenas sem o selo consular e escritos à mão, não tendo, por isso, sido registados em lado algum» (op. cit., p. 101). Ora, em primeiro lugar, os «vistos» dados por Aristides «à trouxe-mouxe, na fronteira entre Bayonne e Hendaye, foram recusados pelos espanhóis, tendo sido completamente inúteis, como certamente foram os que terá dado em Bordéus dessa revolucionária maneira. Portanto, com esses vistos revolucionários, se os deu, não salvou ninguém, porque ninguém os respeitou, tendo mesmo sido declarados oficialmente nulos por Portugal» (cf. Carlos Fernandes, op. cit., pp. 114-115). Depois, Sousa Mendes não emitiu os 2862 vistos entre 1 de Janeiro e 22 de Junho de 1940, como pretende Milgram invocando uma nota de rodapé que diz tão-só o seguinte: «Listas de vistos do consulado de Portugal em Bordéus». Mas, ao invés, Carlos Fernandes, apoiado nos registos consulares, mostra-nos que «desde o princípio do ano [de 1940] até ao fim do dia 19 de Junho, não se chegaram a dar 2.500 vistos no Consulado em Bordéus» (cf. op. cit, p. 17).
(13) «O mito dos 10.000 [vistos] a judeus tem por base uma carta do judeu Ilja Dijour, e nasceu em 1960, 20 anos depois dos factos ocorridos em Bordéus. Os mitos são assim. Levam tempo a nascer.
(…) Rui Afonso diz-nos que llja Dijour e a mulher terão recebido vistos de Aristides em Bordéus, não indicando a data, mas admitamos que sim. Ora, numa carta de Ilja para Robert Magidoff, datada de 19 de Maio de 1960, aquele dirá que 10.000 judeus terão assim obtido refúgio em Portugal. Parece querer insinuar-se que Aristides teria dado este número de vistos a judeus. Mas isso não é verdade. Nem poderia sê-lo» (in Carlos Fernandes, op. cit., pp. 119-120). E mais adianta o embaixador português: «Para se ver até onde chega a crendice, atente-se no que o Embaixador dos EUA escreveu no Diário de Notícias de 27 de Janeiro de 2012, propagandeando que A. de Sousa Mendes, “desafiando ordens do seu governo, emitiu, numa só semana, mais de dez mil vistos a judeus e outros refugiados, ajudando-os a sair de França”.
No entanto, é caso para perguntar a este embaixador, que suponho político e judeu, se os serviços consulares da sua embaixada poderiam emitir numa só semana, dez mil vistos, apenas com um funcionário e dois ajudantes.
Demais, a rebeldia de Aristides não durou uma semana em Bordéus, mas apenas três dias incompletos» (in op. cit., p. 131).
(14) Ibidem, pp. 62-63. «Trabalhando 42 horas naqueles três dias, que nem foram dias completos, porque, no dia 18, o Consulado esteve encerrado, não sabemos porquê nem por quanto tempo, isto daria 14 horas de trabalho diário, ou seja, das 9 horas da manhã até às 11 horas da noite, o que não creio que se pudesse manter assim naqueles três dias seguidos, tanto mais que Seabra, não concordando com os vistos irregulares, certamente não estaria com o espírito zeloso de Aristides, prestando-se a trabalhar 14 horas diárias durante três dias seguidos. E sabemos que não esteve.
Mas, mesmo que todos cumprissem as 14 horas diárias (das 9 às 11 da noite), teríamos, no máximo, cerca de 630 vistos, no total dos três dias da ira (2.520 minutos, a dividir por 4 minutos por cada visto, em média, teríamos 630 vistos), o que está de harmonia tanto com o testemunho de Seabra como com os registos consulares, que passaram, dos dias 17 inclusive para 19 inclusive, de cerca de 1.900 para cerca de 2.500» (in op. cit., pp. 110-111).
(15) Ibidem, pp. 121-125. Na sequência da polémica suscitada pela entrevista realizada no semanário O Diabo (2 de Julho de 2013) ao autor de O cônsul Aristides de Sousa Mendes: a Verdade e a Mentira, veio a lume, no número imediatamente seguinte (9 de Julho de 2013), este trecho prenunciador de uma mais vasta e funda inquirição: «O Professor José Hermano Saraiva revela no volume 6.º das suas Memórias, publicadas pelo semanário “Sol”, uma conversa com o Professor Leite Pinto: “Fala, a propósito, na operação de salvamento dos refugiados republicanos espanhóis e dos judeus que, no início da Segunda Guerra Mundial, se acumulavam na fronteira de Irun, na ânsia de salvar as vidas. Vieram embarcados nos vagões da Companhia dos Caminhos de Ferro da Beira Alta, que iam até Irun carregados de Volfrâmio, e voltavam a Vilar Formoso carregados de fugitivos. (…) Segundo um protocolo firmado pelas autoridades ferroviárias dos dois países, os vagões deviam circular selados, quer à ida quer à vinda. Um dos que assim salvaram a vida foi o Barão de Rothschild. O embaixador Teixeira de Sampaio confirmou-me, mais tarde, esses factos. O salvamento de 30.000 refugiados deu-se ao mesmo tempo que o cônsul de Portugal em Bordéus, em cumplicidade com dois funcionários da PIDE, falsificava algumas centenas de vistos, que vendia por bom preço a emigrantes com dinheiro. Um dos que utilizaram esta via supôs que todos os outros vieram do mesmo modo – e assim nasceu a versão, hoje oficialmente consagrada, de que a operação de salvamento se deve ao cônsul de Bordéus, Aristides de Sousa Mendes. Este, homem muito afecto ao Estado Novo, nem sequer foi demitido, mas sim colocado na situação de aguardar aposentação. Os seus cúmplices da PIDE foram julgados, condenados e demitidos”».
Ainda no respeitante à preocupação atenta de Salazar perante a trágica desventura de milhares de refugiados acolhidos em Portugal, sobretudo velhos, mulheres e crianças, ver o testemunho idóneo de Francisco de Paula Leite Pinto (in Salazar visto pelos seus próximos – 1946-68, Bertrand Editora, 2007, pp. 157-168).
(16) Cf. op. cit., pp. 121-125.
(17) Relatório sobre as actividades da HIAS-ICA em Lisboa, 1 de Julho de 1940 a 18 de Dezembro de 1941, Arquivos HIAS-HICEM, séries I, fita magnética 30.
(18) Avraham Milgram, op. cit., pp. 150-151. De facto, Milgram é um pau de dois bicos, especialmente quando diz que as motivações de Sousa Mendes na sua desobediência ao MNE permaneceram aquém de uma resposta lógica em virtude das suas várias possibilidades, tais como «conhecimento e amizade prévios entre salvador e salvado, altruísmo, fé religiosa, princípios ideológicos, sentimentos humanitários e outros». E afirmando tudo isto, acaba, na mais cabal e flagrante contradição, por concluir que o comportamento de Aristides em Bordéus resultasse «exclusivamente [de] motivações humanitárias» (op. cit., pp. 102-103; negrito é de nossa autoria).
(19) New York Times, 15.12.1940; 19.8.1941.
(20) Vol. 46, 18 de Setembro de 1944 a 7 de Setembro de 1945, p. 238.
(21) Patrick von zur Mühlen, introdução histórica ao catálogo da exposição sobre os refugiados em Portugal, 1933-1945, realizada no Goethe Institute, Lisboa, 1994, ibid., p. 10, e idem, «Portugal, itinerário da fuga», Vértice, n.º 6, Nov./Dez. 1995, p. 13.
(22) Judeus em Portugal. O Testemunho de 50 homens e Mulheres, Versalhes, Edeline Multimédia, 2002, p. 39.
(23) Avraham Milgram, op. cit., pp. 148-150.
(24) «(…) Maurice Sachs, um judeu que criticava esses fuyards, disse que causavam riso, ao darem-se uma suposta grande importância, anunciando que tinham a vida em perigo perante o avanço rápido dos alemães pela França fora, como se Hitler estivesse preocupado em os encontrar para os meter num campo de concentração ou fuzilá-los imediatamente. Não sou eu que digo isto, é Sachs!» (Carlos Fernandes, op. cit., p. 36). Isto é: o «que se passou em França, a partir de 1942, é outra história (…). Era o futuro; não foi o presente em 1940…» (op. cit., p. 37).
(25) In Avraham Milgram, op. cit., p. 84.
(26) Carlos Fernandes, op. cit., p. 60. «Ainda ninguém se abalançou a descrever as acções e ambientes das diversas organizações de espionagem instaladas no nosso país durante a Guerra de Espanha e o segundo conflito mundial. Lisboa e o Estoril foram os maiores centros de guerra secreta do Ocidente, desde 1936 a 1946. Setúbal, Porto e Caldas da Rainha tiveram “sucursais” fomentadoras de redes de informações. Milhares de informadores viviam à margem de actividades insuspeitadas pelas populações» (Francisco de Paula Leite Pinto, in Salazar visto pelos seus próximos, p. 160).
(27) Avraham Milgram, op. cit., pp. 16-17.
(28) Segundo Avraham Milgram, para o regime ditatorial de Salazar «os refugiados eram, à partida, potenciais inimigos» (op. cit., p. 72). Para o efeito, faz também a caricatura dos costumes morais do Portugal de então como avesso aos padrões da modernidade, personificados pelo progresso e pelas «ideias avançadas que sopravam das democracias ocidentais» (op. cit., pp. 141-142). Mas até aí a caricatura não soa muito convincente, pois Salazar sabia muito bem o que, na sua essência, tais democracias ocidentais valiam para a destruição do Ocidente em geral, e de Portugal em particular:
«Falamos com inteira franqueza do desconcerto europeu.
Heis-de ver nos países pacifistas pregar-se a guerra santa contra os países de ordem, e os que pretendem evitar lutas entre os povos por motivos ideológicos promoverem a união das democracias contra as ditaduras. Vereis em nações que blasonam de livres serem negadas liberdades reconhecidas e praticadas nos Estados autoritários; em nome da independência dos Estados admitida a ingerência, na sua vida interna, de organismos revolucionários estrangeiros, e em nome da igualdade dos povos na comunidade internacional ir-se pouco a pouco substituindo à livre associação dos Estados um super-Estado em que por tal caminho se afundará a real independência dos pequenos países» (Oliveira Salazar, «A Embaixada da Colónia Portuguesa no Brasil e a nossa Política Externa», Discurso proferido no Gabinete do Presidente do Conselho em 15 de Abril de 1937, diante dos comissionados pela colónia portuguesa no Brasil para cumprimentar o Governo, in Discursos e Notas Políticas, II, 1935-1937, Coimbra Editora, 1945, pp. 278-279.
(29) Avraham Milgram, op. cit., p. 109. O ataque insidioso do autor torna-se igualmente patente nesta passagem: «Da correspondência do MNE com as suas delegações através da Europa, bem como das reacções às solicitações particulares de judeus a Salazar, desenha-se uma fronteira pouco clara entre formalismo burocrático e motivações anti-semitas…» (in op. cit., p. 85). Semelhante insídia encontra-se igualmente em José-Alain Fralon: «A 13 de Novembro de 1939, [Aristides] recebeu, como todos os diplomatas portugueses, no estrangeiro, uma circular do Ministério dos Negócios Estrangeiros – a circular n.º 14 – que eliminava radicalmente a tradição de hospitalidade de Portugal, velha de séculos, e que introduzia oficialmente uma noção desconhecida até àquela data: a segregação racial e religiosa» (op. cit., p. 43). Perante esta enormidade não é, no entanto, de excluir a possibilidade da existência de alguns elementos anti-semitas na polícia ou nas secretarias do governo em voga. Agora, não embarcamos na indução de possíveis casos particulares para uma generalização manifestamente abusiva quanto à imagem de um regime que se quer ver, directa ou indirectamente, conotado com o anti-semitismo.
(30) Patrick von zur Mühlen, Fluchtweg Spanien-Portugal – Die deutsche Emigration und der exodus aus Europa 1933-1945, Bona, Dietz, 1992, p. 129.
(31) Adolfo Benarus, O anti-semitismo, Lisboa, 1937, p. 15.
(32) Op. cit., pp. 32-37
(33) Op. cit., pp. 97-98.
(34) Op. cit., pp. 31 e 198-199.
(35) Avraham Milgram, op. cit., pp. 66-67.
(36) É o que Milgram deixa entrever quando, a propósito de Salazar e do seu regime, empola a questão em defesa exclusiva dos judeus: «Como portugueses identificados com o regime de Salazar, obedientes às leis do país, aos seus dirigentes e instituições, e temendo os tentáculos da ditadura, que inspirava terror em toda a sociedade portuguesa, os membros da Secção da Assistência aos Refugiados da CIL [Comunidade Israelita de Lisboa] optaram pelo princípio judaico de obedecer à lei do país em detrimento do outro princípio segundo o qual os judeus são responsáveis uns pelos outros» (op. cit., pp. 195-196).
(37) Op. cit., pp. 65-66. No entanto, Mário de Saa também dissera que Portugal «é hoje a nação que mais do que todas as outras do mundo protege os judeus, mercê d’afinidades rácicas. Portugal é uma Nova Palestina…». De resto, a «partir do Verão de 1940, Lisboa tornou-se um dos centros mais importantes, a seguir a Genebra, de actuação das organizações judaicas internacionais. Durante a guerra, actuavam aí a Joint e a HICEM, o Congresso Judaico Mundial e a Agência Judaica. Todas estas organizações investiam muitos esforços e dinheiro na assistência aos refugiados, na organização da sua emigração para o continente americano e para a Palestina e no envio de grandes quantidades de alimentos para os esfomeados nos guetos e nos campos de concentração…» (Avraham Milgram, op. cit., pp. 153-154).
(38) A Polónia e a Roménia “procuraram reduzir consideravelmente o número de judeus que viviam dentro das suas fronteiras, estabelecendo-os em Angola. Ou seja, à custa de Portugal. Portugal tornara-se para estes países um objectivo estratégico, uma das soluções previstas pelos seus governos antes do eclodir da Segunda Guerra Mundial” (cf. Avraham Milgram, op. cit., pp. 18-19).
(39) Armindo Monteiro a Salazar, Londres, 14.2.1938, AHD, 2.º P. A-43, M-81.
(40) Este delegado chefiava a comissão pública para encontrar um território autónomo para os judeus. Armindo Monteiro a Salazar, Londres, 25.11.1938.
(41) O cônsul em Haia, Tavares, a Salazar, 16.12.1938.
(42) Avraham Milgram, op. cit., pp. 121-122.
(43) Oliveira Salazar, «O suposto arrendamento de Angola à Alemanha», nota oficiosa publicada nos jornais de 29 de Janeiro de 1937, in Discursos e Notas Políticas, II, 1935-1937, Coimbra Editora, 1945, pp. 257-259.
(44) Ibidem, pp. 261-262.
(45) Ibidem, pp. 263-264.
(46) Avraham Milgram, op. cit., pp. 123-124.
(47) Ibidem, pp. 124-125.
(48) Cf. José-Alain Fralon, op. cit., pp. 63-64. A título deveras pertinente, diz-nos o embaixador Carlos Fernandes que o comportamento estranho de Aristides esteve relacionado com os seus problemas com a amante Andrée e, para além disso, com a endoutrinação messiânica do rabino Kruger aquando dos três dias e três noites em que o cônsul, transpirando e gemendo, ficou a dar voltas na cama (op. cit., pp. 98 e 149). Demais, quando do encontro de Pedro Teotónio Pereira com Sousa Mendes na fronteira franco-espanhola, o seu testemunho dá conta de um homem sem a mais ligeira noção dos actos cometidos: «Exigi-lhe que me explicasse tão insólita actuação […] De tudo o que ouvi e do seu aspecto de grande desalinho, fiquei com a impressão de que o homem estava profundamente perturbado e fora do seu estado normal» (in José-Alain Fralon, op. cit., p. 80). Depois, há ainda o caso que raia a loucura total de Aristides e de Andrée, já então em Cabanas de Viriato onde os problemas de dinheiro eram uma constante: «(…) uma noite, Aristides e Andrée, tinham convidado os amigos, os que restavam, para jantar. Toda a gente tinha chegado. Andrée, cuja noção do tempo era ainda mais imprecisa do que a do dinheiro, que detestava tudo o que lhe parecesse uma imposição, brilhava pela ausência. Ao verificar que nenhum vestido lhe agradava, desmanchou um cortinado de veludo vermelho, enrolou-se nele e desceu para junto dos convidados. "Estava encantadora", dirá mais tarde Aristides a Maria Rosa» (cf. José-Alain Fralon, op. cit., p. 102).
(49) Carlos Fernandes, op. cit., pp. 33-34. Mais pormenorizadamente, adianta o embaixador Carlos Fernandes: «(…) Salazar nunca o mandou aposentar, já que, aguardando aposentação, ganhava o seu vencimento por inteiro (1.595,30 em 1940, e, em 1953, creio que 2.304,00). Portanto, morreu sem ter sido aposentado, recebendo o seu vencimento por inteiro, após o termo do ano de inactividade» (op. cit., p. 44).
(50) «(…) até quase à morte, Aristides foi inteiramente dominado pela ideia fixa, ou obsessão, de voltar a ser cônsul no estrangeiro, e, a certa altura, mesmo de voltar a sê-lo em Bordéus, chegando a pedir a anulação do decreto pelo qual fora, oficialmente, destituído daquele posto consular. Nunca admitiu que tal nomeação fosse apenas uma linda miragem. Daqui o ódio visceral a Salazar, e a sua adesão ao MUD, etc., o que nada o beneficiou» (Carlos Fernandes, op. cit., p. 184). Demais, «(…) Aristides nem sequer era comedido e prudente quanto aos seus insultos contra Salazar. Isso de o apelidar como sendo “o bandido”, em conversa pública com um engraxador, parece-me que não revela boa índole, além de uma grande ingratidão para com Salazar, que lhe aplicou a punição mais benévola que poderia ser-lhe aplicada (fugindo às penas criminais e disciplinares), com excepção da proposta por Paula Brito, que o Conselho do MNE não aprovou.
(…) De facto, além de apelidar Salazar de “o bandido” em conversa com o engraxador do primo Abranches Pinto quando vai à assembleia de voto, creio que em Cabanas, perante o crucifixo e os retratos de Carmona, à direita, e de Salazar, à esquerda, (era na escola local), Aristides diz: o bom e o mau ladrão, por Carmona e Salazar» (op. cit., pp. 188-189 e 200).
A questão do ódio visceral contra Salazar também foi, por motivações diversas, característica comum a outras figuras previamente conotadas com o regime salazarista, nomeadamente Henrique Galvão e Humberto Delgado. Sobre este último, diz-nos o embaixador Carlos Fernandes que o seu ultra-salazarismo extinguiu-se por questões de ambição pessoal, pois fora-lhe sucessivamente recusado o Governo de Angola, a administração dos Caminhos de Ferro e o Banco Nacional Ultramarino. Daí o ter-se apresentado, em 1958, como candidato a Presidente da República pela oposição, e, como tal, na qualidade de democrata por ressentimento ou simples oportunismo político. E quem «diria que, chegado ao Brasil em 1961, Delgado haveria de proclamar o seu visceral anticolonialismo, aliado ao anti-salazarismo!» (op. cit., pp. 202-204).
De resto, as veleidades teatrais de Humberto Delgado foram tantas, que não nos coibimos de transcrever este trecho hilariante no âmbito do assalto ao paquete Santa Maria por Henrique Galvão: «Ao anoitecer, a bordo de um pequeno barco de pesca alugado pelos repórteres das revistas Life e Time, Humberto Delgado consegue encontrar o Santa Maria. “Bem-vindo, meu general”, recebe-o Miguel Urbano Rodrigues. Dezenas de turistas fotografam o momento. Mas quando Humberto Delgado sobe a bordo, o gancho de uma grua do navio solta-se, acerta-lhe nas costas e fica preso ao seu cinto elevando-o um pouco e tirando-lhe os pés do chão. O general, vestido de fato e gravata, agarra-se à escada e ameaça cair ao mar. Mas consegue recuperar o equilíbrio, solta um palavrão e põe as culpas no jornalista que o recebe: “Vou destruí-lo!”» (in Pedro Jorge Castro, O Inimigo n.º 1 de Salazar. Henrique Galvão, o líder do assalto ao Santa Maria e do sequestro de um avião da TAP, A Esfera dos Livros, 2010, pp. 175-176). Mas o caso não ficaria por aqui: «Dois dias depois, um jornalista português mandará para Lisboa este episódio descrito como um “pormenor pitoresco”: “Assim mesmo, um pouco pendurado e esperneando, voltou-se para trás exclamando para a sua secretária que o acompanhara na lancha e foi também a bordo: ‘Se eu morrer, diga à minha mulher: Morreu como um herói…’”» (op. cit., p. 175). Depois, o episódio que se segue é não menos irrisório, porque permite evidenciar a postura arrogante e a auto-importância que o ex-salazarista atribuía a si próprio: «Humberto Delgado começa por falar com Galvão a sós. Apenas duas horas depois manda chamar os dirigentes espanhóis, que se encontravam a beber uísque no bar. Já passa da meia-noite. Como vê que não se levantam, Frias de Oliveira avisa-os: “Sua excelência o general Delgado não gosta que o façam esperar”. “Se o teu general não quer esperar, ele que vá para o caralho”, responde Velo…» (op. cit., p. 176).
Quanto a Henrique Galvão, o seu ressentimento e revolta contra Salazar nasceu, em grande medida, do facto de se não sentir profissionalmente reconhecido por um ditador que não aparava os seus anseios e ambições surreais. Aliás, o seu estilo bajulador para com Salazar não nos deixa mentir: «Nunca tive a fortuna de servir directamente sob o mando de V. Ex.ª, e nada do que fiz de mais visível teve o mérito de interessar V. Ex.ª a ponto de me querer conhecer mais de perto – eu fiquei, perante as circunstâncias que foram mais eloquentes que os meus actos, e perante V. Ex.ª, não como o homem que sou, na realidade das minhas qualidades e dos meus defeitos, mas como a pessoa que os elementos intermediários entre mim e V. Ex.ª querem que eu seja» (op. cit., Apêndice Documental, Anexo 2, p. 316).
(51) Carlos Fernandes, op. cit., p. 237.
(52) José-Alain Fralon, op. cit., p. 76.
(53) Ob. cit., p. 79. «Salazar, ao não aceitar as propostas do Conselho do Ministério, não teve em conta a penalização disciplinar, e muito menos a criminal, aplicando a Aristides uma punição de facto, mas não uma pena disciplinar…» (Carlos Fernandes, op. cit., p. 236). «Salazar, que não era tão insensível como dizem, compreendeu as circunstâncias da atitude de Aristides, as que lhe eram exteriores e as suas internas, do foro psicológico, e recusou-se a despromovê-lo ou a condená-lo formalmente, aplicando-lhe uma pena, mesmo que fosse só disciplinar. Não quis ir por ali. Apenas entendeu que, nas circunstâncias do momento, Sousa Mendes não se encontrava em condições de exercer convenientemente as funções de cônsul de Portugal no estrangeiro. Apesar disso, ninguém lhe agradeceu, ou compreendeu. Ou quis e quer não compreender.
Ah, mas deu-lhe cabo da vida.
Não deu, quem lhe deu cabo da vida, a ele e aos familiares, foi ele mesmo, seja qual tenha sido a motivação do seu actuar, e os méritos ou deméritos desse actuar, então ou ex post facto» (op. cit., p. 246).
(54) Avraham Milgram, op. cit., p. 98. «(…) o facto de Aristides de Sousa Mendes falecer no hospital da Ordem Terceira de S. Francisco, ao Chiado, não tem, para mim, qualquer significado especial, de riqueza ou pobreza, porque não prova nada do que, agora, pretendem provar – que morreu lá porque morreu na miséria, onde Salazar o tinha lançado. Foi para ali por razões logísticas – era o hospital mais próximo. Porque poderia ter ido, com vantagem, para um hospital público, tal qual foi para um particular.
Demais, regressava de uma viagem a França, ele e a mulher, estando hospedados num hotel do Chiado, em Lisboa, o que não se faz quando se está na mais completa miséria» (Carlos Fernandes, op cit., p. 209).
(55) José-Alain Fralon, op. cit., p. 100.
(56) Carlos Fernandes, op cit., pp. 89-90.
(57) José-Alain Fralon, op. cit., p. 108.
(58) Carlos Fernandes, op. cit., p. 323. «(…) Aristides, como cônsul em Portugal, quer em Antuérpia quer em Bordéus, deu seguramente muito mais do que os 2000 vistos de que se querem juntar provas. Duvido, porém, que tenha sido esse o número dos vistos dados a judeus.
Mas, repetimos, isto não quer dizer nada como protecção ou não protecção seja a quem for. Continuamos numa tentativa de mitificação, a meu ver estúpida, por se basear na mentira, já que Portugal foi sempre contra a discriminação racial. Creio que nem por motivos estatísticos esta campanha, parece que judaica, tem qualquer sentido, e muito menos como brincadeira racial, sempre de mau gosto» (op. cit., p. 326).
(59) Ibidem, p. 68.
(60) Ibidem, pp. 64-67.
(61) Ibidem, p. 263.
(62) Ibidem, p. 263. Em José-Alain Fralon também se confirma o sobredito: «Em Junho de 1986, John Paul redigiu uma petição, que acabou por ser assinada por 2800 pessoas e publicada no New York Times, para ser enviada às autoridades portuguesas a pedir a reabilitação de Sousa Mendes. Em 1987, sempre impulsionada por Tony Coelho, a Câmara dos Representantes adoptou uma resolução Paying special tribute to Dr. De Sousa Mendes for His extraordinary acts of mercy and justice during World War II (“Para prestar um tributo especial à memória do Dr. Sousa Mendes pelos seus extraordinários actos de misericórdia e de justiça durante a Segunda Guerra Mundial”). O representante Robert Jacobvitz recebeu a propósito disso uma carta de Ted Kennedy, em que este se afirmava “co-responsável” por esta resolução e se punha à disposição dela para quaisquer outras acções a favor da memória de Sousa Mendes» (in op. cit., pp. 109-110).
(63) Cf. Carlos Fernandes, op. cit., p. 253. «Contudo, o que revela o poder daqueles lobbies, interna e internacionalmente, os filhos de Aristides acharam pouco, não reconhecendo prestígio à Ordem da Liberdade, pós-abrilina e dada a esmo a quase toda a gente, pedindo mais (…).
E que fizeram os políticos portugueses, incluindo o Presidente da República e o Governo? Cederam à pressão, e deram-lhe a Ordem de Cristo! E nada menos do que no grau mais elevado, isto é, a grã-cruz que, normalmente, nunca poderia ter.
(…) Que poderoso se tem mostrado o lobby Sousa Mendes, interna e internacionalmente, a ponto de impor ao Estado português acções que, imparcialmente, parecem, quando menos, bizarras.
E é assim que Sousa Mendes obteve a Ordem da Liberdade, e depois, a Ordem de Cristo. A ressurreição é que não será possível. Tem de ir-se para o mito» (op. cit., p. 254).
(64) Ora, o embaixador Carlos Fernandes demonstra que tal nunca se poderia ter processado legalmente, já que «Aristides pertenceu à carreira consular e não à diplomática, e, sendo cônsul de 1.ª classe em 30 de Outubro de 1940, cônsul de 1.ª classe continuou a ser até que faleceu em 3/4/1954, nunca tendo sido demitido ou aposentado compulsivamente», como aliás exigia, para efeitos da respectiva reintegração, o artigo 2º do Decreto-Lei 173/74 (op. cit., pp. 269-270). E mais nos descreve pormenorizadamente como os deputados da Assembleia da República, entre eles José Manuel Mendes, Isabel Espada, Narana Coissoró e Leonardo Ribeiro de Almeida, alegaram argumentos falaciosos para justificarem a já referida reintegração de Sousa Mendes. Em suma: «A falsificação, seja do que for, é a negação da verdade, e, como tal, aberrante, sendo a falsificação da História uma das mais aberrantes. E, se a falsificação for feita por diploma legislativo, estaremos perante a mais completa destruição de uma ordem social baseada no Direito e na Moral, que são os pilares da democracia.
A história não se faz por lei ou decreto-lei, que são sempre instrumentos políticos manuseados por quem tem o poder de fazer a lei.
Ora, isto foi apanágio dos estalinismos, mas não pode sê-lo dos Estados de Direito» (op. cit., pp. 256-259).
(65) Cf. José-Alain Fralon, op. cit., p. 113. «"É uma grande honra e uma grande emoção", afirmou Mário Soares, “estar aqui para prestar homenagem a Aristides de Sousa Mendes, este grande português, este português simples, um homem modesto que soube, contra as ordens de Salazar, cumprir os seus deveres de humanidade”» (in op. cit., p. 114).
(66) «(…) Para calcular aquela indemnização, tentou-se saber quanto é que a Caixa Geral de Aposentações lhe teria pago. Esta não conseguiu encontrar rasto dessa aposentação, e, apesar de reiteradíssima insistência do MNE, nada veio a encontrar. É óbvio que nada poderia encontrar, uma vez que Aristides nunca foi aposentado (…).
Porém, toda a argumentação que os diversos serviços do MNE tomaram como base factual da indemnização, sem se darem ao trabalho de investigar, se com razão ou sem ela, já que tinham no MNE elementos para isso, foi a demissão ou a aposentação compulsiva, ambas inexistentes. Fizeram o mesmo que a Assembleia da República.
(…) Finalmente, depois de muitos cálculos e recálculos, chegaram os serviços do MNE à conclusão, provisória, de que a indemnização justa seria de 769.869$00.
Parecendo isto pouco, foram procurar novas bases de cálculo, e chegaram ao montante de 8.585 contos, ou, por outro cálculo mais favorável, a 14.308 contos.
Como a Lei 51/88, com base no disposto no artigo 2º do Decreto-Lei 222/75, de 9 de Maio, aditando um n.º 3 ao artigo 1º no Decreto-Lei 173/74, impôs que a indemnização fosse só para os filhos, os filhos e os netos de Aristides não se entenderam, e, assim, não foram capazes de apresentar no MNE, em tempo útil, documentação válida de habilitação de herdeiros, pelo que, afinal, nada lhes foi dado, directamente.
Depois de o MNE andar a empurrar o pagamento da indemnização para o Ministério das Finanças, sem conseguir que este aceitasse o encargo, Jaime Gama, à falta de legal habilitação de herdeiros para receberem a indemnização, terá sugerido, ou aceitado a sugestão, de criar uma fundação, à qual seriam dados não só os 15.000 contos já despachados, mas, ainda, mais 50.000 contos, com 2.000 contos de subsídio anual, fundação que, com a ajuda do MNE, veio a ser constituída por escritura de 23 de Fevereiro de 2000, e reconhecida oficialmente pelo Secretário de Estado da Administração Interna, Luís Manuel dos Santos Silva Patrão, em 21 de Março do mesmo ano [os 65.000 contos, adicionados pelos 2.000 contos anuais então prometidos, vêm confirmados nos documentos anexos que o embaixador Carlos Fernandes reuniu no seu livro].
Mas, como as Finanças não quiseram pagar e não havia verba para isso no orçamento do MNE, Jaime Gama fez todas estas liberalidades extorquindo-as ao FRI (Fundo para as Relações Internacionais), que não é constituído por verbas do Estado mas sim pelas compensações pessoais emolumentarmente cobradas pelos serviços consulares portugueses.
Não é, portanto, verba do orçamento do Estado, de que o MNE é órgão.
E assim se dispõe do dinheiro dos outros, ao sabor do arbítrio político do momento. O FRI não é nem pode ser político. Seria o maior abuso dos abusos politizá-lo.
(…) Hoje, francamente não sei do que vive [a Fundação Aristides de Sousa Mendes], esperando que não continue a receber do FRI o correspondente aos 2.000 contos prometidos por Jaime Gama, porque, se os recebe, é um escândalo intolerável.
E conviria saber o destino que os activistas netos de Aristides deram efectivamente à avultada verba que Jaime Gama e Ribeiro Menezes puseram à disposição deles, isto é, utilizaram-na, directa ou indirectamente, em proveito próprio, ou para outras finalidades, e, neste último caso, concretamente quais?» (op. cit., pp. 271-274).
(67) Ibidem, p. 252. E, para que não se impute ao Governo de Salazar a situação trágica em que Sousa Mendes se viu pessoal e profissionalmente envolvido, é preciso não esquecer que o cônsul teve, ao longo da sua atribulada carreira, oito repreensões e cinco processos disciplinares (op. cit., p. 171).
(68) Cf. José –Alain Fralon, op. cit., p. 114.
(69) Ibidem, p. 114.
(70) Ibidem, p. 112. Mas há sempre mais: em 2005, na Grande Sala da Unesco em Paris, o barítono Jorge Chaminé organiza uma Homenagem a Aristides de Sousa Mendes, realizando dois Concertos para a Paz, integrados nas comemorações dos 60 anos da Unesco. Em Viena, Áustria, no Vienna International Center, onde estão sedeados diversos organismos da ONU, como a Agência Internacional de Energia Atómica, existe um grande passeio pedonal com o nome do alegado diplomata português, denominado Aristides-de-Sousa-Mendes-Promenade.
(71) Ibidem, p. 116.
(72) O concurso, baseado no programa de grande êxito da BBC – Greatest Britons –, foi realizado de 25 de Outubro de 2006 a 25 de Março de 2007. O vencedor do concurso foi António de Oliveira Salazar com 41% dos votos dos Portugueses.
(73) Não esqueçamos que J. M. Júdice chegou a ser bastonário dos advogados, pelo que das duas uma: ou não sabe o que são provas para sustentar os "factos" que publicamente alega, ou não se deu simplesmente ao cuidado de averiguar o que propalou na televisão portuguesa. Estamos em crer que a segunda alternativa é a verdadeira por mais conveniente ao seu vil propósito de atacar António de Oliveira Salazar.
(74) Carlos Fernandes, op. cit., p. 290. O negrito é de nossa autoria.


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