Boletim Evoliano, núm. 7



Em vésperas de solstício...

O legionário acompanha a roda da vida e vive de solstício em equinócio e de equinócio em solstício, porque é nestas datas que, em comunhão com os seus camaradas, festeja os vivos e homenageia os mortos. Os mártires e heróis que não claudicaram, que lutaram, que ganharam ou perderam, mas sobretudo não traíram.
A Honra é nossa Pátria a Fidelidade nossa Mãe!

Avé!

(Editorial do Boletim Evoliano, nº 5)

Julius Evola: Presente!

19/05/1898 - 11/06/1974

«Apenas conta, hoje, o trabalho daqueles que se sabem manter no cume: firmes nos princípios; inacessíveis a todo o compromisso; indiferentes perante as febres, as convulsões, as superstições e as prostituições, ao ritmo das quais dançam as últimas gerações. Apenas conta a resistência silenciosa de um pequeno número, cuja presença impassível de “convivas de pedra” permita criar novas relações, novas distâncias, novos valores, para criar um pólo que, não impedindo, é certo, este mundo de desenraizados e agitados de ser o que é, permitirá, todavia, transmitir a alguns a sensação da verdade, sensação essa que será talvez também o despoletar de alguma crise libertadora.»

Os homens entre si

(via Inconformista)

"Com os clubes e as «sociedades secretas», afirma Lionel Tiger, «os homens fazm a corte aos homens». As grandes confrarias profissionais, as corporações estudantis, as ordens, as sociedades secretas são meios de reforçar (e de exaltar) o vínculo intermasculino. Seja no colégio ou no exército, as «cerimónias de iniciação», por vezes bizarras e mesmo cruéis, evoam os ritos de passagem da puberdade (com a transposição que se impõe: é-se«adulto» quando se detémo conhecimento ou o poder) e apertam os laços entre «iniciados». Os clubes femininos, pelo contrário soçobram regularmente na desordem e nos mexericos.
(...) Tiger lembra que o homem, em relação à mulher, é ao mesmo tempo mais racional e mais irrazoável. O homem sabe que se lança por vezes em aventuras sem esperança, que enfrenta desafios extravagantes. Mas ele pensa que não deve «dar o braço a torcer». Esta concepção do sacrifício inútil decorre directamente de uma ética de honra. A mulher, ela, vê as coisas de outro modo. Ela reprova ao homem o seu «orgulho». Ela acusa-o de correr atrás de «quimeras», e de negligenciar as suas responsabilidades familiares. Para ela, nunca se dá o braço a torcer quando se é «razoável».
No fim de contas, o homem é sempre uma criança. Os alemães têm uma palavra para isto: Das Kind im Manne — a criança que, no homem feito, é a memória viva de um passado sempre destinado e inspirar o futuro.
Montherlant dizia que «um homem sem criancices é um monstro horrível». Nietzche, ao contrário, propunha «pôr na acção a seriedade que a criança põe no jogo» — quer dizer, precisamente, consideraras coisas sérias como um jogo. Daí, no homem, essa nostalgia dos lugares de infância e dos amores adolescentes — dos quais Jules Romains pode dizer que são uma mistura de angelitude e de obscenidade.
As sociedades que acentuam a segurança, o conforto, às quais repugna o risco, são sociedades em que os valores masculinos estão em declínio. «Faça amor, não a guerra» é um slogan feminino que se traduz por: «Façam-nos amor, não façam guerra entre vocês».
O homem nunca acaba, como nos tempos da sua infância, de ir aos ninhos de pássaros. Não tanto pelos ninhos, aliás, mas para trepar ao alto das árvores. Ele quer sempre ir mais longe, mais depressa, mais alto. Ele tem prazer na competição, ele admira os records. A mulher pergunta «para que é que isso serve». É por isso que cabe à mulher preservar o que o homem adquiriu. A sociedade mantém-se assim — e renova-se eternamente.»

Alain de Benoist
in "Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas", Lisboa, Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite, 1981

Ser de Direita

Mas pode-se também prescindir de pressupostos institucionais e falar de uma Direita nos termos de uma orientação espiritual e de uma concepção do mundo. Então, ser de Direita significa, além de estar contra a democracia e contra todas as mitologias socialistas, defender os valores da Tradição como valores espirituais, aristocráticos e guerreiros (…) Significa, além disso, alimentar um certo desprezo face ao intelectualismo e em relação ao fetichismo burguês do “homem culto” (…) Ser de Direita significa também ser conservador, ainda que não num sentido estático. O pressuposto óbvio é que exista algo subsistente digno de ser conservado (…) De qualquer modo, ao afirmar que uma Direita não deve ser caracterizada por um conservadorismo estático quer-se dizer que devem, isso sim, existir certos valores ou certas ideias-base operando como um firme terreno, e que aos mesmos se devem dar diferentes expressões, adequadas ao desenvolvimento dos tempos, para não se ser ultrapassado, para retomar, controlar e incorporar tudo aquilo que se vai manifestando à medida que as situações variam. Este é o único sentido no qual um homem de Direita pode conceber o “progresso” (…) O “progressismo” é uma quimera estranha a toda a posição de Direita. Também o é porque numa consideração geral do curso da história, com referência aos valores espirituais, não aos materiais, às conquistas técnicas, etc., o homem de Direita é levado a reconhecer uma descida, não um progresso e uma verdadeira subida. Os desenvolvimentos da sociedade actual não podem senão confirmar esta convicção. As posturas de uma Direita são necessariamente anti-societárias, anti-plebeias e aristocráticas; de tal modo que a contraparte de tudo isto será a afirmação do ideal de um Estado bem estruturado, orgânico, hierárquico, regido por um princípio de autoridade.

- Julius Evola, "Ser de Direita"

Espiritualidade Pagã na Idade Média Católica

Quem tenha tido ocasião de ler regularmente os nossos artigos e especialmente os publicados em diversas ocasiões na Vita Nuova, conhece já o ponto de partida que será o fio condutor das presentes notas: referimo-nos à ideia de uma oposição fundamental entre duas atitudes espirituais distintas nas quais é preciso ver a origem de duas tradições bem diferenciadas, tanto sobre o plano histórico como suprahistórico.
A primeira é a atitude guerreira e real, a segunda, a atitude religiosa e sacerdotal. Uma constitui o pólo viril, a outra, o pólo feminino do espírito. Uma que tem como símbolo o Sol, o “triunfo”, corresponde ao ideal de uma espiritualidade cujos vectores são a vitória, a força, o poder ordenador e que afecta todas as actividades e todos os indivíduos no seio de um organismo simultaneamente temporal e supratemporal (o ideal sagrado do Imperium), afirmando a proeminência de tudo o que é diferença e hierarquia. A outra atitude tem por símbolo a Lua, e como ela, recebe de outro a luz e a autoridade, remete-se a outro e veicula um dualismo redutor, uma incompatibilidade entre o espírito e a potência, mas também uma desconfiança e um desprezo por toda a forma de afirmação superior e viril da personalidade: o que a caracteriza é o pathos da igualdade, do “temor a Deus”, do “pecado” e da “redenção”.
O que a história – até aos nossos dias – nos mostrou sobre a oposição entre autoridade religiosa e poder “temporal”, não é senão um eco, uma forma tardia e materializada, na qual degenerou um conflito que, desde a origem, se refere a esses dois pólos, quer dizer, um conflito entre duas autoridades, igualmente espirituais, entre duas correntes referidas com o mesmo título, ainda que de maneira oposta, ao supramundo. Há mais: a atitude “religiosa”, longe de corresponder apenas ao aspecto espiritual e esgotar o que emana do domínio supremo do espírito, não é mais que um produto, relativamente recente, de processos degenerativos que afectaram uma tradição espiritual mais antiga e primordial, de tipo claramente “solar”.
Com efeito, se examinarmos as instituições das maiores civilizações tradicionais – da China à Roma antiga, do Egipto ao Irão, do Peru pré-colombiano ao velho mundo Nórdico-Escandinavo – encontramos constantemente, sob traços uniformes, a ideia da fusão absoluta dos dois poderes: o real e o espiritual; acerca da hierarquia, não encontramos uma igreja, mas sim uma “realeza divina”; não o ideal do santo, mas sim daquele que, pela sua própria natureza superior, pela força invocatória do rito como “técnica divina”, joga, em relação às potências espirituais (ou “divindades”) o mesmo papel viril e dominador que um chefe militar perante os seus homens. É um processo de desvirilização espiritual que, a partir daqui, conduziu à forma religiosa, logo – aumentando constantemente a distância entre o homem e Deus, e a servidão do primeiro em relação ao segundo em benefício exclusivo da casta sacerdotal – minou a unidade tradicional dando lugar à dupla antítese de uma espiritualidade antiviril (sacerdotal) e uma virilidade material (secularização da ideia de Estado e de Realeza, materialização das antigas e sagradas aristocracias). Se se deve aos elementos Arianos as formas luminosas das antigas civilizações “solares”, no Ocidente, há que atribuir sobretudo ao elemento levantino o triunfo do espírito religioso, desde a asiatização do mundo greco-latino, até à decadência da ideia imperial augusta e à chegada do cristianismo.
Nestas notas propomo-nos clarificar alguns aspectos pouco conhecidos da civilização medieval, a fim de demonstrar que incluiu a tentativa (tanto visível como oculta) de uma grande reacção, a vontade de reconstruir uma tradição universal cujo objectivo, apesar das aparências formais e da concepção corrente da Idade Média como uma idade “católica” por excelência, é anticristão ou, melhor, supera o cristianismo.

- Julius Evola, introdução a “A Espiritualidade Pagã na Idade Média Católica”

Deuses e Demónios do Populismo

(via Pasquim da Reacção)

Uma das maiores demonstrações de impotência da Esquerda é a forma como vê os seus adversários. O “fáchismo” que descrevem nos seus oponentes é uma visão infantil do que foi o Fascismo na realidade, com toda a sua moral popular, estatista, restruturadora, centralizadora. Para a Esquerda, o “fáchista” é aquele que defende um conjunto de normas que não vêm da soberania popular, que não se submete ao papel instrumental da racionalidade como forma de elevar a Humanidade ao papel de realidade transcendente, que rejeita que o objectivo da vida humana seja a criação de uma sociedade em que se cumpre a panaceia do indivíduo (em que este ultrapassa a escassez e vive como Deus no seu universo particular). É evidente que os fascistas não partilhavam esse credo, mas a infantilidade mental que preside a esta dicotomia é apenas um reflexo de visões simples do mundo que reflectem a forma populista da esquerda de contemporânea.

A forma como Hitler é descrito como um inimigo da razão esclarecida (um contra-iluminista, portanto), um mero caso clínico de loucura ou um defensor do preconceito social populista (que a Esquerda veio destruir) é apenas uma forma de varrer para baixo do tapete os problemas levantados pelo paradigma moderno de que Hitler foi consequência lógica.

Afirmar que o problema de Hitler se encontra no seu desprezo pela Razão é apenas o primeiro acto da paródia. É verdade que Hitler foi um crítico da razão iluminista enquanto forma de ordenar a comunidade política. Mas também o foram Rousseau, Nietzsche ou Sartre. Não se consegue vislumbrar de que forma é que o anti-racionalismo de Nietzsche, que se encontra tão em voga nesta época pós-moderna, pode ser a causa de um mal tão grande e de tantas bençãos (Foucault, Deleuze, etc.). E quem mais do que Hitler, transformou as ciências numa forma de religiosidade política, forçando nas descrições científicas as distinções que a necessidade política forçava? O segundo acto está montado. A diferença entre o mau e os bons está na forma como os segundos fazem uso dessa racionalidade. Os maus matam pela raça, os bons pela classe social. Sartre, santificado na Europa Ocidental, afirmava o seu pacifismo enquanto defendia os campos de concentração onde se empilhavam inimigos do povo. Estaline, o maior assassino da História, era um santo que fazia o mundo adequar-se ao sonho de Marx. A diferença entre o populismo de uns (do povo, com toda a fúria socialista) e o que é dirigido a outros (a pequena burguesia, com todo o seu ódio racial) é, para o Esquerdista, toda a diferença do mundo. Mas qual é a diferença real, ou o critério para avaliar a diferença entre os preconceitos de Robespierre ou Marx, a necessidade do Terror e da destruição física e social da burguesia ou da nobreza e ou de um outro qualquer povo?

É curioso que num mundo obcecado com os campos de concentração, a abertura ao Leste tenha vindo com a total incorporação da máquina estatal comunista. Sem culpados, sem crimes, sem dias da memória histórica…

Estão nos a preparar para o quê?

Homens exemplo

Reconhecer isto, significa reconhecer também que o primeiro problema, base de qualquer outro, é de índole interna: reerguer-se, ressurgir interiormente, tomar forma, criar em nós mesmos ordem e aprumo. Quem se ilude acerca da possibilidade de uma luta puramente política e sobre o poder de uma ou outra forma ou sistema que não tenha contrapartida precisa numa nova qualidade humana, nada aprendeu das lições do recente passado. (...) Devemos tomar uma posição firme contra aquele falso “realismo político” que pensa apenas em termos de programas, de problemas de organização partidária, de receitas sociais e económicas. Tudo isso pertence ao contingente, não ao essencial. A medida do que pode ser ainda salvo depende da existência ou inexistência de homens que se apresentem, não a pregar fórmulas, mas como exemplos, não pactuando com a demagogia e com o materialismo das massas, mas despertando formas diversas de sensibilidade e de interesses.

- Julius Evola, Orientações

«A Política é uma espécie de Metafísica prática» - Entrevista a Marcos Ghio

Reproduzimos aqui parte da entrevista concedida pelo director do Centro de Estudos Evolianos, Marcos Ghio, à prestigiosa revista alemã Junges Forum. A conclusão desta entrevista será publicada no próximo número do Boletim Evoliano.

* * *

O senhor traduziu grande parte dos livros de Evola para o espanhol, o que é um esforço bastante grande e mostra a sua dedicação ao pensamento evoliano e à Tradição. Em que ano encontrou pela primeira vez este pensador e que parte do seu pensamento provocou o seu interesse especial?

Tal como explicamos no nosso opúsculo El Rito y la Guerra, o nosso primeiro contacto com a obra de Evola foi em 1982, durante a guerra das Malvinas, quando um grupo nacionalista local publicou em castelhano uma conferência dada por Evola na Alemanha, intitulada A Doutrina Ariana de Luta e Vitória. De tal autor interessou-me essencialmente o vínculo que era capaz de efectuar entre a metafísica e a realidade política quotidiana, coisa que não sucedia com outro autor tradicionalista do meu conhecimento, René Guénon.

A primeira obra publicada por si foi, segundo as minhas informações, A Doutrina Ariana de Luta e Vitória. Este livro foi publicado na Argentina no ano de 1982, no mesmo ano em que ocorreu a guerra das Malvinas. A publicação foi feita nesse ano por coincidência ou por intenção?

Tal como lhe expliquei na minha anterior resposta, esse folheto não foi traduzido por mim. A minha primeira tradução foi em 1994, da obra Revolta contra o Mundo Moderno, o que só foi possível quando consegui que me enviassem os livros de Evola desde Itália, já que na sua maioria, os principais especialmente, não estavam traduzidos na nossa língua.

O senhor publicou à volta de trinta livros de e sobre Evola (quantos livros publicou exactamente?). Quais considera serem as mais importantes obras de Evola? Por outras palavras: em que livros lhe parece que o pensamento de Evola é mais profundo, é mais exacto? Onde lhe parece a interpretação tradicionalista mais clara?

Já perdemos a conta a todas as obras que traduzimos de tal autor – digamos uma trintena. Indubitavelmente a mais importante de todas é Revolta contra o Mundo Moderno, mas também o são Os Homens e as Ruínas, Cavalgar o Tigre, Imperialismo Pagão, A Raça do Espírito… A primeira delas sistematiza a totalidade do pensamento evoliano, já as outras analisam problemas particulares.

Defensores da Tradição e gente de fora falam várias vezes de um lado “espiritual” e de um lado “político” da Tradição. Esta distinção parece-lhe oportuna e razoável?
De maneira nenhuma, a menos que entendamos a política, tal como se faz actualmente, como um mero negócio para progredir socialmente. Mas tão-pouco devemos entender o espiritual como uma terapia, tal como sucede nos nossos dias. De um ponto de vista tradicional, a Política é uma espécie de Metafísica prática.

Septentrionis Lux


Recebemos do nosso amigo e camarada Eduard Alcántara a nota que a seguir transcrevemos:

A través de este
enlace se puede acceder a nuestro blog. Está en vías de completarse pero ya dispone de un buen fondo de escritos, por lo que hemos considerado que ya está en disposición de que se pueda hacer público. La línea general de los artículos presentes es la propia de Septentrionis Lux, es decir, aquella guiada por los principios que informan lo que se ha venido a denominar como Tradición y que tan magistralmente nos han sabido transmitir egregias figuras como Julius Evola y René Guénon. No relacionaremos sino a éstos dos por la condición que tienen de principales sistematizadores de la Tradición, ya que de ensanchar la lista de Tradicionalistas de calado ésta podría hacerse en exceso extensiva y no es éste el propósito de esta nota.

El enfoque que dio Julius Evola alrededor de los parámetros propios al Mundo Tradicional motiva que tengamos a éste como el principal faro inspirador. No todos los colaboradores de Septentrionis Lux comparten necesaria y escrupulosamente esta visión del mundo y de la existencia, pero ello no es razón para exclusiones sectarias con las que no comulgamos. Sea como fuera todos los colaboradores sí que comparten su rechazo por el actual orden de cosas y su anhelo por presentar auténticas e integrales alternativas. Algunos de los trabajos redactados corresponden a respuestas dadas a peticiones concretas que se nos han formulado, razón por la cual a alguien quizás pudiera asombrarle algo sus contenidos. Pero, sea como fuere, los ejes que inspiran a la Tradición son los que nos han guiado a la hora de tratar todos y cada uno de estos temas que quizás pudiesen salirse de nuestras temáticas habituales.


Esperamos contar con vuestro valioso crédito.
Saludos
Eduard Alcántara
Septentrionis Lux

Estamos em guarda

Nós, tradicionalistas, ficamos muitas vezes com a sensação de que o que dizemos ou escrevemos é para “ninguém” entender. Seja!

Raramente discutimos o dia-a-dia qui passe e, quando o fazemos, desconcertamos os nossos interlocutores, muitas das vezes de posições e opiniões radicalmente opostas, dizendo-lhes abertamente que estão enganados a nosso respeito pois também nós queremos ver aniquilado aquilo que eles atacam.

Não acreditando, mudam de estratégia e tentam a provocação com coisas que pretensamente, pensam eles, nos são queridas. Então argumentam com conservadorismos burgueses e/ou religiosos à espera que surja em nós uma agressividade na defesa de ditas posições. A desilusão aumenta quando lhes dizemos que estão a atacar o nosso objectivo, provavelmente até prioritário, embora, claro está, desde posições diferentes, mas isto nós não lhes dizemos, o que os deixa mais irritados.

Mas então o que é que vós defendeis (perguntam)? – Nada, ou muito pouca coisa, temos mesmo dificuldade em encontrar coisas defensáveis, pelo que só podemos dizer: lutamos por nós e pelos nossos.

Mas afinal em que mundo acreditais, que sociedade é que pretendeis, alguma coisa deveis defender, não tendes filhos?. o que quereis para eles?

- Sim, defendemos os nossos, já o dissemos, e por muito que nos custe, o melhor para os nossos seria uma dissolução imediata do pós-modernismo, ultimo fôlego do mono-darwiniano que, recordamos, foi usado com mestria e apoteose no desfecho de uma recente reunião política por um popularucho dirigente sofista da chamada esquerda caviar.

Como amamos os nossos, gostaríamos de os ajudar lutando por eles e ao lado deles numa batalha final para que a Ordem pudesse de novo vingar sobre o caos mas, infelizmente, embora estejamos na última fase do kali-yuga, isto não vai acontecer na nossa geração e, portanto, só nos resta treinar “auxiliando”, se vantajoso, as autorizadas forças subversivas a atacar.

É um processo perigoso ou ideologicamente perigoso, exige demasiado, corre-se o risco de se cair numa espécie de síndrome de Estocolmo?

- Sim nós sabemos. Estamos em guarda.

Tigre Branco

Vindo de Espanha, chegou-nos por mão amiga este texto (recomendação) que traduzimos e agora publicamos, ficando desde já a aguardar a chegada deste livro ao nosso país, o que se prevê para Março próximo.

* * *

Por Fernando Sánchez Drago
Há muito tempo que não recomendo um livro. Hoje recomendarei um que me foi recomendado por Javier Moro. Por certo que recomendo também o seu último (El sari rojo, Seix Barral) e todos os anteriores. Javier tem a virtude – penso eu – de adiantar-se sempre: escreve os livros que eu gostaria de escrever. Isso dá-me alguma raiva, mas não me impede de ser-lhe devoto, render-lhe admiração e professar-lhe amizade.

O livro ao qual me vou referir-me é uma novela, trata da Índia de hoje, foi escrita por Aravind Adiga e chama-se Tigre Branco. Ganhou o Main Booker Prize de 2008. A edição espanhola, traduzida com pulso firme por Santiago del Rey, é da Miscelânea. O seu autor nasceu em 1974, vive em Bombaim e foi responsável da revista Time e do Financial Times.

Costumo eu dizer que ninguém escreve boas novelas antes dos quarenta anos. Tigre Branco demonstra que estava equivocado. Trata-se, além disso, do seu primeiro livro. Pertence a um género inventado em Espanha: la picaresca. Mas uma picaresca rica em cargas de profundidade. Os rugidos e a garra deste tigre albino ajudam a entender porque é que a Índia dos nossos dias, com seus méritos e os seus defeitos, é o que é e porque era inevitável que assim fosse.

Um pequeno excerto? Seja. Transcrevo literalmente, de seguida, não sem antes avisar aos leitores que o que nesse texto se diz a propósito das castas, tão desapreciadas e mal entendidas no Ocidente, poderá ferir a sensibilidade dos judeo-cristãos politicamente correctos.

Eis: este país nos seus dias de grandeza, quando era a nação mais rica da Terra, era como um zoo. Um zoo limpo, ordenado e bem conservado. Cada um feliz e no seu sítio. Os ourives, aqui; os vaqueiros, ali; os senhores, acolá. O que se chama Halwai fabricava doces; o vaqueiro cuidava das vacas, e o intocável limpava as fezes. Os senhores eram amáveis com os seus servos. As mulheres cobriam a cabeça com um véu e baixavam os olhos quando falavam com um estranho. E então, graças a todos estes políticos de Deli, no dia 15 de Agosto de 1947, ou seja, no dia em que os britânicos se foram, todas as jaulas ficaram abertas. Os animais começaram a atacar-se e a destroçar-se uns aos outros e a lei da selva substituiu a lei do zoo. Os mais ferozes, os mais famintos, comeram os restantes e começaram a encher a barriga. Isto era a única coisa que contava agora: o tamanho da barriga. Não importava se eras mulher, muçulmano ou intocável: qualquer um com uma boa pança podia progredir. O pai de meu pai era um Halwai autêntico, um fabricante de doces. Mas quando ele herdou a sua loja, um membro de outra casta roubou-a com ajuda da polícia. O meu pai não tinha uma barriga para defender-se. Por isso foi desalojado até ao fundo do lodo, até ao nível de um condutor de rickshaw. Por isso me arrebataram meu destino de gordinho sorridente de pele cremosa. Em resumo: nos velhos tempos havia na Índia um milhar de castas e de destinos. Hoje em dia só há duas castas: a dos homens com grandes barrigas e a dos homens sem barriga. E só dois destinos: comer ou ser comido.

Quem nasceu ou viveu na Índia (ou pelo menos a percorreu a fundo, como Javier Moro e eu) sabe que Aravind Adiga, doa a quem doer, tem razão.

Livro: Diálogos de Doutrina Anti-Democrática

A «Edições Réquila» acaba de reeditar a obra «Diálogos de Doutrina Anti-Democrática», de António José de Brito. Publicado pela primeira vez em 1975, no auge do PREC, esta 2ª edição conta, para além do texto original, com uma «nota à 2ª edição» da autoria do autor. Um livro a não perder!
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