Sobre o Bushido

Há no japonês uma designação geral para todas as virtudes que distinguem o homem cavalheiresco. Ela abrange as virtudes da fidelidade e o dever, da distinção e veneração, da coragem e da modéstia, da resistência e espírito de sacrifício até ao abandono incondicional. Da soma destas virtudes resulta um determinado ideal de vida, que é obrigatório para cada japonês e, por isso, todos procuram segui-lo na sua maneira de proceder. Mas a imposição deste dever é para o soldado ainda muito mais elevada do que para o civil. O ideal provém da vida militar. Era outrora um ideal característico duma classe de militares de carreira: o Samurai. Da época dos samurais provem também o nome desta atitude basilar determinada por essas virtudes: Bushido.
Bu-shi-do significa literalmente: “Guerreiro–Senhor–Caminho (ou práticas)”, ou seja, as “práticas”, os preceitos que devem observar os guerreiros nobres tanto na sua vida diária como no exercício da sua profissão.
Bushido não é um código escrito mas consiste sobretudo na observância de certas máximas transmitidas oralmente ou escritas por um sábio, monge, ou guerreiro famoso. Clãs houve que adoptaram, escreveram e explicaram essas máximas fazendo delas rigorosas regras de conduta. No entanto, importa também perceber como o Bushido penetrou e impregnou a alma de todo o povo japonês até aos nossos dias.
Historicamente é comum reportarmos o aparecimento desta Ética Cavalheiresca, que se viria mais tarde a designar de Bushido, ao séc. XII, período que na Europa se designou de Feudalismo e que de igual modo viu também nascer a Cavalaria e as ordens monástico militares. Estas similitudes, que parecem obra do acaso (serão mesmo?), fazem-nos lembrar outros períodos históricos que em pontos diferentes e distantes viram nascer na mesma época Homens Sábios como Sócrates, Platão, Sidharta Gautama (Buda), Lao-tsé e Confúcio! Há épocas em que a Natureza nos presenteia com boas colheitas, pena é que muitas vezes não saibamos apreciar os seus sabores…
No Japão, a essa classe de nobres guerreiros chamaram-lhes samurais, aqueles que servem, guardas, protectores, cavaleiros. E foi assim que esta “raça” de bravos, como os cavaleiros medievais europeus, iriam ter uma enorme importância no País do Sol Nascente e viram a sua actividade estar no centro de todo o desenrolar de acontecimentos, sobretudo nas constantes guerras que assolaram o país.
Porque é que indivíduos escolhidos e treinados para a guerra e portanto para matar ou morrer, muitas das vezes com uma frieza, uma calma, ou num espécie de transe fanático eram impulsionados para a morte com suas espadas em riste pela “simples” razão de cumprimento de dever de fidelidade ao seu Senhor? A arte do samurai é a guerra, Bushido é morrer com Honra. Diz-nos o Hagakure: O caminho do Samurai está no desespero. Nem dez ou mais adversários podem matar um homem desesperado… Não é preciso lealdade ou devoção, basta se perder a razão no Caminho. A própria lealdade e a devoção se encontram no desespero.
Para se ser um Samurai perfeito é preciso preparar-se para a morte, a ideia de morte tem que estar presente de manhã, à tarde e à noite. Morrer, é o que nos vai acontecer mais cedo ou mais tarde. Então porquê agarrarmo-nos à vida se assim a perdemos.
Vamos então procurar entender quais as “drogas” que estes Senhores tomavam para que se tornassem em exemplo de disciplina, abnegação, honra, fidelidade, serviço… e também, embora muitas vezes esquecida, compaixão. É certo que um samurai não hesitava em matar alguém se assim lhe ditasse a “sua vontade” mas da mesma forma ele cortava as próprias entranhas (Seppuko) se a sua conduta ficasse por isso manchada.

AS FONTES DO BUSHIDO

O BUDISMO
O budismo japonês exerce a sua educação num sentido de uma atitude muito enérgica, muito corajosa e activa perante a vida.
Mas tal como este budismo não pretende desvalorizar a vida, também não ensina que ela seja o valor mais elevado. Segundo a concepção budista, aquela realidade em que decorre a nossa vida é no fundo apenas uma aparência comparável a uma sombra ou sonho. Nesta vida é preciso revelar coragem, mas aquilo que o homem deve ambicionar não se esgota nesta vida.
A realidade terrena e a vida humana são afinal somente uma transição para uma existência mais elevada e a morte é ao mesmo tempo apenas o limiar para essa vida. Isto retira ao homem muito do que causa ao ser humano horror ou receio perante a morte.
Nas sábias palavras de Inazo Nitobe (autor de «Bushido, o coração do Japão»): O Budismo que procura um sentimento de confiança sereno no destino, a submissão tranquila ao inevitável, o sangue frio estóico frente ao perigo ou à desgraça, o desdém à vida e o amável acolhimento da morte.
Um dos mestres de esgrima mais famosos, quando viu o seu aluno chegar à mestria suprema na arte, disse-lhe: “agora o meu ensino deve deixar lugar ao Zen”.
E é do Zen-budismo que agora vamos falar e para tal continuamos a socorrer-nos de gente diferenciada:
D. T. Suzuki diz-nos: A meta do arqueiro não é apenas atingir o alvo; a espada não é empunhada para derrotar o adversário; o dançarino não dança unicamente com a finalidade de executar movimentos harmoniosos. O que eles pretendem, antes de tudo, é harmonizar o consciente com o inconsciente.
Para ser um autêntico arqueiro, ou espadachim, o domínio técnico é insuficiente, é necessário transcendê-lo, de tal maneira que ele se converta numa arte sem arte, emanada do inconsciente.
Mas o que é o Zen?
O Zen tem as suas origens no Budismo Dhyana que significa literalmente “contemplação” (meditação). É um dos seis paramitas (perfeições, virtudes) do Budismo. Com a passagem do Budismo pela China este adaptou-se ao país de acolhimento e absorve algumas influências locais, designadamente do Taoismo (de Lao-tsé). É na China que o Budismo Dhyana, agora T’chan, atinge a maturidade e é com a passagem para o Japão que ele se “refina” e impregna todo o país onde se fez uma Tradição Viva que subsiste até hoje nas mais variadas formas de arte.
Deitamos mão a outro extraordinário livro escrito por um ocidental, professor e filósofo alemão que viveu durante muitos anos no Japão – Eugen Herrigel – que na sua simples e sublime obra, «A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen», nos transporta para, como ele lhe chamou, a doutrina magna do tiro com arco, o Kyudo.
«Desde a primeira aula, fomos alertados de que o caminho que conduz À ARTE SEM ARTE é áspero.
…Áspero é o caminho do aprendizado. Muitas vezes a única coisa que mantém o discípulo animado é a fé no mestre, em que só agora reconhece o domínio absoluto da arte: com a sua vida, dá-lhe o exemplo do que seja OBRA INTERIOR, e convence-o apenas com a sua presença.
E por fim quando a técnica é dominada e a tensão (do arco) é libertada sem (a minha) intenção – ALGO dispara. Algo Atirou e Algo Acertou. Inclinemo-nos diante da nossa meta, como se estivéssemos diante de Buda.
…Sob a influência do Zen, A HABILIDADE SE ESPIRITUALIZOU. E é assim que o samurai torna-se cada vez mais indiferente a tudo que possa amedrontá-lo. Através de longos anos dedicados à meditação ele descobre que no fundo, a vida e a morte são uma única coisa, e que ambas pertencem ao mesmo plano do destino. Ele não sente angústia de viver, nem o terror da morte. Apraz-lhe – e isso é característico do espírito Zen – viver no mundo, mas está sempre preparado para abandoná-lo, sem que a ideia da morte o perturbe. Não foi por casuali­dade que o samurai escolheu a flor de cerejeira como o seu símbolo. Assim como a pétala, reflectindo o pálido raio do sol matinal, se desprende da flor, o homem intrépido se desprende, silenciosa e impassivelmente, da existência.
Viver sem medo da morte não significa que, durante as horas felizes, nos gabemos de não tremer diante dela, nem que possamos afirmar que a enfrentamos com segu­rança. Porém, quem domina a vida e a morte está livre de todo temor, a tal ponto que não é mais capaz de experi­mentar a sensação de medo. E quem não conhece, por experiência própria, o poder da meditação séria e "prolon­gada não pode imaginar as vitórias sobre nós mesmos que podemos obter. Seja como for, o mestre verdadeiro revela sua coragem com atitudes, jamais com palavras. Quem o conhece não pode deixar de se impressionar profundamen­te. São raras as pessoas que conseguem manter uma inaba­lável impassibilidade, e que só por isso devem ser chamadas de mestres. Para ilustrar o que acabo de dizer, transcreverei na íntegra uma passagem do Hagakure, datado de meados do século XVII.
«Yagyu Tajima-no-kami (foi neste mestre que Takuan se inspirou para escrever o seu tratado intitulado «A impassível compreensão») era um grande mestre-espadachim e professor do xógum Tokugawa Jyemitsu. Cer­to dia, um dos seus guardas se aproximou de Tajima­no-kami e pediu-lhe que o aceitasse como aluno, ao que o mestre respondeu: “Pelo que vejo, o senhor já é um mestre. Peço-lhe que me diga a que escola pertence, antes que entremos na relação mestre-discípulo”. O guarda observou que se envergonhava de dizer, mas jamais tinha aprendido a arte da esgrima. “O senhor está a brincar comigo? Sou o mestre do venerável xógum e sei que meus olhos jamais se enganam.” O guarda insistiu: “Lamento ofender a sua honra, mas a verdade é que jamais tive qualquer conhecimento desta arte”. Frente a tão segura negativa, o mestre vacilou um momento, ao final do qual disse: “Como o senhor afirma, não vou desmenti-lo, mas segura­mente o senhor é mestre em alguma outra disciplina, embora eu não saiba qual seja”. Respondeu-lhe o guarda: “Pois bem, como o senhor insiste, devo dizer-lhe que existe uma coisa na qual me considero mestre. Quando eu era criança, ocorreu-me a ideia de que um samurai não tem o direito de temer a morte em qualquer circunstância, e desde então lutei continuamente com a ideia da morte, até que ela deixou de preocupar-me. Talvez seja a isso que o senhor se refere”. Mal ouvira tais palavras, Tajima­no-kami exclamou: “Exactamente! Alegro-me que não me tenha enganado, pois o último segredo da arte da espada é atingir a libertação da ideia da morte. Tenho mostrado essa meta a centenas de alunos, mas até agora nenhum alcançou o grau supremo na arte da espada. O senhor não precisa de qualquer treino, porque já é um mestre.»
Se a superação do medo da morte, ou pelo menos o auto-controlo corajoso para enfrentar um perigo mortal, é de máxima importância na formação do samurai, também o é a educação ética e filosófica. E se Budismo já por si imbui os seus discípulos de uma elevada moral, foi o confucionismo que veio estabelecer padrões e comportamentos da nobreza cavalheiresca e por consequência de todo o povo nipónico.
Não importa só, para que se atinja uma Ordem Guerreira, que os seus integrantes não temam a morte, qualquer bandido, pode, e muitas vezes “mais facilmente” ultrapassar esta fronteira usando os caminhos negros da imoralidade, da ausência de escrúpulos e de qualquer farol ético, conseguindo assim na sua vertigem usar, não os sentimentos, mas as emoções mais primitivas para se lançar destemidamente em aventuras escabrosas, no assassínio, no roubo e em todas as violações… o lado negro da força. Ou como Shakespeare lhe chamou: a bravura bastarda.
Recordemos algumas máximas e ensinamentos do grande filósofo chinês.

CONFÚCIO
«Se o príncipe conduz o povo por meio de leis e o mantém na unidade por meio de castigos, o povo se abstém de agir mal; mas não conhece vergonha alguma. Se o príncipe dirige o povo pela virtude e faz reinar a união graças aos ritos, o povo tem vergonha de agir mal e se tornará virtuoso.
Levar o povo à guerra, antes de tê-lo instruído é levá-lo à sua perda.
O homem honroso, mesmo em pensamento, não sai do seu lugar.
O homem honroso espera tudo de si mesmo, o homem de pouco, espera tudo dos outros.
Não se corrigir depois de um erro, eis o erro.
Antigamente, eu passava dias inteiros sem comer e noites inteiras sem dormir, para me entregar à meditação. Colhi poucos frutos. É melhor estudar.
Os verdadeiros homens são sempre mais fortes que a fome que sentem. Os fracos, e somente esses, se entregam ao desfalecimento.
A minha ambição é que os velhos possam viver em paz, que os amigos sejam leais e que os moços amem os mais velhos.
Governar é endireitar o povo.
O homem sábio aspira à perfeição; o homem vulgar, ao bem-estar; o primeiro se preocupa em observar as leis, o outro, em solicitar favores.
Raramente nos perdemos se nos impusermos a nós mesmos, regras severas.
A linguagem deve exprimir com clareza o pensamento. Isto é tudo.»
A filosofia de Confúcio visa a uma organização nacionalista da sociedade, baseando-se no principio da simpatia universal que devia obter-se por meio da educação. Estendia-se do indivíduo à família e desta ao Estado – a grande família.
A piedade filial, que está presente na ética samurai, é talvez a característica mais importante no sistema confucionista. Segundo o confucionismo, a piedade filial requer, em geral, que um filho respeite afectuosamente os pais, proveja as suas necessidades e carências enquanto vivos, e recordem deles o carinho, afeição e o respeito, quando morrerem.
Acima de tudo, porém, requer uma vida nobre para manter a honra e o bom-nome da família. Talvez compreendamos melhor agora porque é que os samurais antes de entrarem em combate, ocasionalmente, referissem com orgulho e a alta voz quem eram, quem era a sua ascendência e o seu clã.
Consideremos assim que a família era para Confúcio o ponto de partida lógico para o desenvolvimento moral e o lar deve ser a escola básica, preparatória das virtudes cívicas.

Rectidão e Justiça
Mencio, discípulo de Confúcio, dizia que a bondade é a alma do homem e que a rectidão ou honradez são a sua vida. Que triste – exclamava ele – descuidar esta via e não segui-la, perder a alma e não saber encontrá-la. A rectidão é um caminho direito e estreito que o homem deve tomar para recuperar o paraíso perdido.
A rectidão é a irmã gémea do Valor, outra virtude marcial. Dizia Confúcio – Saber o que é justo e não o fazer, demonstra ausência de valor. O valor é fazer o que é justo. Assim se define um Cavaleiro que morre e vive defendendo o seu Nobre Ideal. É próprio do verdadeiro valor – viver quando faz falta viver e morrer somente quando faz falta morrer.
Quando o valor atinge a sua cúspide assemelha-se à Bondade, mas como nos diz uma outra máxima – A rectidão levada ao excesso converte-se em dureza. A bondade praticada sem medida degenera em debilidade. Nada em excesso ensinavam os antigos Estóicos.
A Bondade e a Cortesia andam de mãos dadas mas estas não passarão de coisas insignificantes se camuflarem medos ou receios de ofender o outro e daí sujeitarem-se às consequências.
A Paciência e a Resistência prolongada foram também altamente preconizadas por Mencio. Escreve assim – Que esqueças toda a moderação e me insultes, que me importa a mim! Não podeis manchar a minha alma com o vosso ultraje. Noutra vez ensina-nos que – Encolerizar-se por uma ofensa mínima é indigno de um homem superior, mas a indignação por uma grande causa está justificada.

Honra
Não permitas que a ideia de uma vida longa ganhe poder sobre ti, pois de contrário serias capaz de te perder e acabar os teus dias com vergonha.
Se tu morres sem alcançar o objectivo, essa morte pode ser mais inútil que a morte de um cão, a morte da loucura, mas a tua honra não é manchada. Para o Bushido em primeiro lugar está a honra.
O sentimento de honra que implica uma consciência muito subtil do valor e da dignidade pessoal, não podia deixar de ser a característica dos Samurais, nascidos e educados na estima dos deveres e dos privilégios da sua profissão. Ainda que a palavra geralmente usada em nossos dias para expressar a ideia de honra não foi correntemente empregada, a ideia, não obstante, era traduzida por termos tais como «na» (nome), «menmoku» (comedimento) «guai-bun» (atenção exterior), termos que, respectivamente, nos evocam a evolução do termo «personalidade» originária da «mascara grega», em resumo, a «reputação». Um bom-nome é a sua reputação a parte imortal de si mesmo prescindindo do elemento bestial. Conseguir uma boa reputação era um elemento fulcral, e este bom-nome podia (era) ser transmitido, sendo por conseguinte um património de família. Manchar este bom-nome por má conduta ou por receber graves ofensas, levava obrigatoriamente ao sentimento de vergonha, com o qual toda a juventude era educada. Frases (incentivos, estímulos) como: – Não tens vergonha? – Toda a gente te gozará! – Isso não é digno do filho de um samurai. – Aprende a honrar o nome da tua família, etc., faziam parte dessa educação.
Com efeito, o sentimento de vergonha parece-me ser o primeiro signo da consciência moral de uma raça.
Como Mencio havia ensinado – A vergonha é a terra que abona todas as virtudes, as boas maneiras e os bons costumes.
Mas (repetimos) – ofender-se por uma provocação ligeira era ridicularizado como uma falta de domínio sobre si mesmo.

Fidelidade
O desprezo pela morte do samurai, a virtude mais importante do bushido, tem ainda outra raiz doutrinária. Quando o soldado japonês morre, a sua última palavra é uma saudação de veneração ao Micado. “Sua Majestade o imperador, banzai” – Esta é a última saudação com que o soldado japonês morre. Os últimos pensamentos são, portanto, dirigidos para o imperador. O que agita as outras pessoas nos últimos momentos: a vida, o futuro, o lar, a família – tudo isto é substituído no coração do combatente pelo pensamento no Micado. Num velho e conhecido versículo samurai diz-se:
Vais como homem para a guerra:
Três coisas deste mundo
Jamais poderão existir em ti:
O Lar – os teus – a vida!
O Micado é mais que o imperador. Ele é uma divindade. Não é um encarregado de Deus ou um eleito de Deus, ou um sacerdote ou representante de Deus. Ele é o descendente da Rainha do Sol (Amaterasu) e é dotado de autoridade e dignidade divina.
Isto é o Xintoísmo, a religião nativa do Japão, e a terceira, e não menos importante, fonte espiritual do Bushido. É antes de qualquer influência, o componente básico de toda a cultura japonesa. O seu culto remonta aos longínquos anos da chamada Pré-História e estende-se até aos nossos dias, sendo a célula matriz de toda a organização social do povo japonês. Culto ligado à Natureza, o Xintoísmo exprime através de ritos específicos os laços harmoniosos que se manifestam no quotidiano dos homens e na sua ligação ao divino.
E sem nos alongarmos, para no final terminarmos este nosso trabalho com uma notável história de Honra e Fidelidade, expomos alguns contributos do Xintoísmo ao Bushido:
- Fidelidade ao Tenno. Esta implica ao Estado, às instituições, ao povo e ao Japão. Que como já referimos atinge o seu ponto culminante no desejo sublime de “morrer” (dar a vida) pelo imperador.
- O culto dos antepassados. Fisicamente “filhos dos Kami”, os japoneses pressentem o seu parentesco celeste que se traduz, a nível dos clãs pela veneração do deus do nome da família: O uji kami. Daqui também a devoção filial.
- A essência do Yamato, o espírito místico-espiritual do patriotismo nipónico. Criação divina, natureza sagrada do Dai-Nippon.
- O sentimento de pureza. A pureza ritual é um dado capital do Xintoísmo. Daí a quantidade de ritos de purificação que o Bushido impõe ao samurai: Ablução em cascatas, jejuns, ascensão de montanhas, etc.
- O sentimento de sinceridade (shin). Este implica as ideias de verdade, de honradez e de lealdade, mas obriga também o samurai a desprezar o seu interesse pessoal, a ideia do lucro e a apagar as humanas paixões. A estes contributos, é necessário acrescentar o significado sagrado da espada.

O sabre: a alma do samurai
O Bushido fez do sabre o emblema do seu poder e das suas proezas. Desde muito jovem o samurai trinava no seu manejo e se iniciava nos regulamentos da profissão das armas. Aprendia assim a amar o seu sabre, a sentir o seu poder e a identificar-se com ele. Aos quinze anos, idade de emancipação, quando atingia a condição de homem, o jovem samurai jamais saía de casa sem portar visivelmente a sua alma – o seu sagrado sabre.
O que forjava os sabres não era um simples artesão, mas um artista inspirado e o seu atelier um santuário. Todos os dias iniciava o seu labor com uma oração e com a purificação, segundo se dizia: Ligava a sua alma e seu espírito ao aço que forjava e temperava. Cada golpe de martelo, cada têmpera, cada gesto, era assim um acto religioso de grande importância.
E assim se dizia que o samurai «não leva em vão a sua espada, o que leva na sua cintura é o símbolo do que leva em seu coração: Lealdade e Honra.»
Terminemos assim este “nosso trabalho”, (na realidade como alguém dizia, já está tudo escrito, falta por em prática!) com a verdadeira e fascinante história dos 47 Samurais e deliciem-se pois o que atrás escrevemos está aqui tudo posto em prática.

«Nivelamento por baixo»

A conclusão que se deduz nitidamente de tudo isto, é que a uniformidade, para ser possível, suporia seres desprovidos de todas as qualidades e reduzidos a simples «unidades» numéricas; é por isso que uma tal uniformidade nunca é realizável de facto, e todos os esforços feitos para a realizar, nomeadamente no domínio do humano, só podem ter como consequência o desprover mais ou menos completamente os seres das suas qualidades próprias, e desse modo, fazer deles qualquer coisa parecida com simples máquinas, porque a máquina, produto típico do mundo moderno, é bem aquilo que representa, ao mais alto grau jamais atingido, a predominância da quantidade sobre a qualidade. É para isso que tendem, do ponto de vista social, as concepções «democráticas» e «igualitárias», para as quais todos os indivíduos são equivalentes entre si, o que leva à suposição absurda de que todos devem estar igualmente aptos para tudo; esta «igualdade» é algo de que a natureza não oferece nenhum exemplo, pelas razões que acabámos de indicar, já que se assim fosse, ela não seria mais do que uma completa semelhança entre os indivíduos; mas é evidente que, em nome desta pretensa «igualdade», um dos «ideais» ao invés mais caros ao mundo moderno, fazem os indivíduos o mais semelhantes que a natureza permite, e para isso, primeiro que tudo, pretendendo impor a todos uma educação uniforme. É claro que, como não se pode suprimir inteiramente a diferença das aptidões, essa educação não dá em todos os mesmos resultados; mas também é verdade que, se é incapaz de dar a certos indivíduos as qualidades que eles não têm, pelo contrário, é capaz de abafar noutros todas as possibilidades que ultrapassam o nível comum; é assim que o «nivelamento» se faz sempre por baixo.

- René Guenon, O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos, Publicações Dom Quixote, 1989, p. 53

Boletim Evoliano, núm. 7



Em vésperas de solstício...

O legionário acompanha a roda da vida e vive de solstício em equinócio e de equinócio em solstício, porque é nestas datas que, em comunhão com os seus camaradas, festeja os vivos e homenageia os mortos. Os mártires e heróis que não claudicaram, que lutaram, que ganharam ou perderam, mas sobretudo não traíram.
A Honra é nossa Pátria a Fidelidade nossa Mãe!

Avé!

(Editorial do Boletim Evoliano, nº 5)

Julius Evola: Presente!

19/05/1898 - 11/06/1974

«Apenas conta, hoje, o trabalho daqueles que se sabem manter no cume: firmes nos princípios; inacessíveis a todo o compromisso; indiferentes perante as febres, as convulsões, as superstições e as prostituições, ao ritmo das quais dançam as últimas gerações. Apenas conta a resistência silenciosa de um pequeno número, cuja presença impassível de “convivas de pedra” permita criar novas relações, novas distâncias, novos valores, para criar um pólo que, não impedindo, é certo, este mundo de desenraizados e agitados de ser o que é, permitirá, todavia, transmitir a alguns a sensação da verdade, sensação essa que será talvez também o despoletar de alguma crise libertadora.»

Os homens entre si

(via Inconformista)

"Com os clubes e as «sociedades secretas», afirma Lionel Tiger, «os homens fazm a corte aos homens». As grandes confrarias profissionais, as corporações estudantis, as ordens, as sociedades secretas são meios de reforçar (e de exaltar) o vínculo intermasculino. Seja no colégio ou no exército, as «cerimónias de iniciação», por vezes bizarras e mesmo cruéis, evoam os ritos de passagem da puberdade (com a transposição que se impõe: é-se«adulto» quando se detémo conhecimento ou o poder) e apertam os laços entre «iniciados». Os clubes femininos, pelo contrário soçobram regularmente na desordem e nos mexericos.
(...) Tiger lembra que o homem, em relação à mulher, é ao mesmo tempo mais racional e mais irrazoável. O homem sabe que se lança por vezes em aventuras sem esperança, que enfrenta desafios extravagantes. Mas ele pensa que não deve «dar o braço a torcer». Esta concepção do sacrifício inútil decorre directamente de uma ética de honra. A mulher, ela, vê as coisas de outro modo. Ela reprova ao homem o seu «orgulho». Ela acusa-o de correr atrás de «quimeras», e de negligenciar as suas responsabilidades familiares. Para ela, nunca se dá o braço a torcer quando se é «razoável».
No fim de contas, o homem é sempre uma criança. Os alemães têm uma palavra para isto: Das Kind im Manne — a criança que, no homem feito, é a memória viva de um passado sempre destinado e inspirar o futuro.
Montherlant dizia que «um homem sem criancices é um monstro horrível». Nietzche, ao contrário, propunha «pôr na acção a seriedade que a criança põe no jogo» — quer dizer, precisamente, consideraras coisas sérias como um jogo. Daí, no homem, essa nostalgia dos lugares de infância e dos amores adolescentes — dos quais Jules Romains pode dizer que são uma mistura de angelitude e de obscenidade.
As sociedades que acentuam a segurança, o conforto, às quais repugna o risco, são sociedades em que os valores masculinos estão em declínio. «Faça amor, não a guerra» é um slogan feminino que se traduz por: «Façam-nos amor, não façam guerra entre vocês».
O homem nunca acaba, como nos tempos da sua infância, de ir aos ninhos de pássaros. Não tanto pelos ninhos, aliás, mas para trepar ao alto das árvores. Ele quer sempre ir mais longe, mais depressa, mais alto. Ele tem prazer na competição, ele admira os records. A mulher pergunta «para que é que isso serve». É por isso que cabe à mulher preservar o que o homem adquiriu. A sociedade mantém-se assim — e renova-se eternamente.»

Alain de Benoist
in "Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas", Lisboa, Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite, 1981

Ser de Direita

Mas pode-se também prescindir de pressupostos institucionais e falar de uma Direita nos termos de uma orientação espiritual e de uma concepção do mundo. Então, ser de Direita significa, além de estar contra a democracia e contra todas as mitologias socialistas, defender os valores da Tradição como valores espirituais, aristocráticos e guerreiros (…) Significa, além disso, alimentar um certo desprezo face ao intelectualismo e em relação ao fetichismo burguês do “homem culto” (…) Ser de Direita significa também ser conservador, ainda que não num sentido estático. O pressuposto óbvio é que exista algo subsistente digno de ser conservado (…) De qualquer modo, ao afirmar que uma Direita não deve ser caracterizada por um conservadorismo estático quer-se dizer que devem, isso sim, existir certos valores ou certas ideias-base operando como um firme terreno, e que aos mesmos se devem dar diferentes expressões, adequadas ao desenvolvimento dos tempos, para não se ser ultrapassado, para retomar, controlar e incorporar tudo aquilo que se vai manifestando à medida que as situações variam. Este é o único sentido no qual um homem de Direita pode conceber o “progresso” (…) O “progressismo” é uma quimera estranha a toda a posição de Direita. Também o é porque numa consideração geral do curso da história, com referência aos valores espirituais, não aos materiais, às conquistas técnicas, etc., o homem de Direita é levado a reconhecer uma descida, não um progresso e uma verdadeira subida. Os desenvolvimentos da sociedade actual não podem senão confirmar esta convicção. As posturas de uma Direita são necessariamente anti-societárias, anti-plebeias e aristocráticas; de tal modo que a contraparte de tudo isto será a afirmação do ideal de um Estado bem estruturado, orgânico, hierárquico, regido por um princípio de autoridade.

- Julius Evola, "Ser de Direita"

Espiritualidade Pagã na Idade Média Católica

Quem tenha tido ocasião de ler regularmente os nossos artigos e especialmente os publicados em diversas ocasiões na Vita Nuova, conhece já o ponto de partida que será o fio condutor das presentes notas: referimo-nos à ideia de uma oposição fundamental entre duas atitudes espirituais distintas nas quais é preciso ver a origem de duas tradições bem diferenciadas, tanto sobre o plano histórico como suprahistórico.
A primeira é a atitude guerreira e real, a segunda, a atitude religiosa e sacerdotal. Uma constitui o pólo viril, a outra, o pólo feminino do espírito. Uma que tem como símbolo o Sol, o “triunfo”, corresponde ao ideal de uma espiritualidade cujos vectores são a vitória, a força, o poder ordenador e que afecta todas as actividades e todos os indivíduos no seio de um organismo simultaneamente temporal e supratemporal (o ideal sagrado do Imperium), afirmando a proeminência de tudo o que é diferença e hierarquia. A outra atitude tem por símbolo a Lua, e como ela, recebe de outro a luz e a autoridade, remete-se a outro e veicula um dualismo redutor, uma incompatibilidade entre o espírito e a potência, mas também uma desconfiança e um desprezo por toda a forma de afirmação superior e viril da personalidade: o que a caracteriza é o pathos da igualdade, do “temor a Deus”, do “pecado” e da “redenção”.
O que a história – até aos nossos dias – nos mostrou sobre a oposição entre autoridade religiosa e poder “temporal”, não é senão um eco, uma forma tardia e materializada, na qual degenerou um conflito que, desde a origem, se refere a esses dois pólos, quer dizer, um conflito entre duas autoridades, igualmente espirituais, entre duas correntes referidas com o mesmo título, ainda que de maneira oposta, ao supramundo. Há mais: a atitude “religiosa”, longe de corresponder apenas ao aspecto espiritual e esgotar o que emana do domínio supremo do espírito, não é mais que um produto, relativamente recente, de processos degenerativos que afectaram uma tradição espiritual mais antiga e primordial, de tipo claramente “solar”.
Com efeito, se examinarmos as instituições das maiores civilizações tradicionais – da China à Roma antiga, do Egipto ao Irão, do Peru pré-colombiano ao velho mundo Nórdico-Escandinavo – encontramos constantemente, sob traços uniformes, a ideia da fusão absoluta dos dois poderes: o real e o espiritual; acerca da hierarquia, não encontramos uma igreja, mas sim uma “realeza divina”; não o ideal do santo, mas sim daquele que, pela sua própria natureza superior, pela força invocatória do rito como “técnica divina”, joga, em relação às potências espirituais (ou “divindades”) o mesmo papel viril e dominador que um chefe militar perante os seus homens. É um processo de desvirilização espiritual que, a partir daqui, conduziu à forma religiosa, logo – aumentando constantemente a distância entre o homem e Deus, e a servidão do primeiro em relação ao segundo em benefício exclusivo da casta sacerdotal – minou a unidade tradicional dando lugar à dupla antítese de uma espiritualidade antiviril (sacerdotal) e uma virilidade material (secularização da ideia de Estado e de Realeza, materialização das antigas e sagradas aristocracias). Se se deve aos elementos Arianos as formas luminosas das antigas civilizações “solares”, no Ocidente, há que atribuir sobretudo ao elemento levantino o triunfo do espírito religioso, desde a asiatização do mundo greco-latino, até à decadência da ideia imperial augusta e à chegada do cristianismo.
Nestas notas propomo-nos clarificar alguns aspectos pouco conhecidos da civilização medieval, a fim de demonstrar que incluiu a tentativa (tanto visível como oculta) de uma grande reacção, a vontade de reconstruir uma tradição universal cujo objectivo, apesar das aparências formais e da concepção corrente da Idade Média como uma idade “católica” por excelência, é anticristão ou, melhor, supera o cristianismo.

- Julius Evola, introdução a “A Espiritualidade Pagã na Idade Média Católica”

Deuses e Demónios do Populismo

(via Pasquim da Reacção)

Uma das maiores demonstrações de impotência da Esquerda é a forma como vê os seus adversários. O “fáchismo” que descrevem nos seus oponentes é uma visão infantil do que foi o Fascismo na realidade, com toda a sua moral popular, estatista, restruturadora, centralizadora. Para a Esquerda, o “fáchista” é aquele que defende um conjunto de normas que não vêm da soberania popular, que não se submete ao papel instrumental da racionalidade como forma de elevar a Humanidade ao papel de realidade transcendente, que rejeita que o objectivo da vida humana seja a criação de uma sociedade em que se cumpre a panaceia do indivíduo (em que este ultrapassa a escassez e vive como Deus no seu universo particular). É evidente que os fascistas não partilhavam esse credo, mas a infantilidade mental que preside a esta dicotomia é apenas um reflexo de visões simples do mundo que reflectem a forma populista da esquerda de contemporânea.

A forma como Hitler é descrito como um inimigo da razão esclarecida (um contra-iluminista, portanto), um mero caso clínico de loucura ou um defensor do preconceito social populista (que a Esquerda veio destruir) é apenas uma forma de varrer para baixo do tapete os problemas levantados pelo paradigma moderno de que Hitler foi consequência lógica.

Afirmar que o problema de Hitler se encontra no seu desprezo pela Razão é apenas o primeiro acto da paródia. É verdade que Hitler foi um crítico da razão iluminista enquanto forma de ordenar a comunidade política. Mas também o foram Rousseau, Nietzsche ou Sartre. Não se consegue vislumbrar de que forma é que o anti-racionalismo de Nietzsche, que se encontra tão em voga nesta época pós-moderna, pode ser a causa de um mal tão grande e de tantas bençãos (Foucault, Deleuze, etc.). E quem mais do que Hitler, transformou as ciências numa forma de religiosidade política, forçando nas descrições científicas as distinções que a necessidade política forçava? O segundo acto está montado. A diferença entre o mau e os bons está na forma como os segundos fazem uso dessa racionalidade. Os maus matam pela raça, os bons pela classe social. Sartre, santificado na Europa Ocidental, afirmava o seu pacifismo enquanto defendia os campos de concentração onde se empilhavam inimigos do povo. Estaline, o maior assassino da História, era um santo que fazia o mundo adequar-se ao sonho de Marx. A diferença entre o populismo de uns (do povo, com toda a fúria socialista) e o que é dirigido a outros (a pequena burguesia, com todo o seu ódio racial) é, para o Esquerdista, toda a diferença do mundo. Mas qual é a diferença real, ou o critério para avaliar a diferença entre os preconceitos de Robespierre ou Marx, a necessidade do Terror e da destruição física e social da burguesia ou da nobreza e ou de um outro qualquer povo?

É curioso que num mundo obcecado com os campos de concentração, a abertura ao Leste tenha vindo com a total incorporação da máquina estatal comunista. Sem culpados, sem crimes, sem dias da memória histórica…

Estão nos a preparar para o quê?

Homens exemplo

Reconhecer isto, significa reconhecer também que o primeiro problema, base de qualquer outro, é de índole interna: reerguer-se, ressurgir interiormente, tomar forma, criar em nós mesmos ordem e aprumo. Quem se ilude acerca da possibilidade de uma luta puramente política e sobre o poder de uma ou outra forma ou sistema que não tenha contrapartida precisa numa nova qualidade humana, nada aprendeu das lições do recente passado. (...) Devemos tomar uma posição firme contra aquele falso “realismo político” que pensa apenas em termos de programas, de problemas de organização partidária, de receitas sociais e económicas. Tudo isso pertence ao contingente, não ao essencial. A medida do que pode ser ainda salvo depende da existência ou inexistência de homens que se apresentem, não a pregar fórmulas, mas como exemplos, não pactuando com a demagogia e com o materialismo das massas, mas despertando formas diversas de sensibilidade e de interesses.

- Julius Evola, Orientações

«A Política é uma espécie de Metafísica prática» - Entrevista a Marcos Ghio

Reproduzimos aqui parte da entrevista concedida pelo director do Centro de Estudos Evolianos, Marcos Ghio, à prestigiosa revista alemã Junges Forum. A conclusão desta entrevista será publicada no próximo número do Boletim Evoliano.

* * *

O senhor traduziu grande parte dos livros de Evola para o espanhol, o que é um esforço bastante grande e mostra a sua dedicação ao pensamento evoliano e à Tradição. Em que ano encontrou pela primeira vez este pensador e que parte do seu pensamento provocou o seu interesse especial?

Tal como explicamos no nosso opúsculo El Rito y la Guerra, o nosso primeiro contacto com a obra de Evola foi em 1982, durante a guerra das Malvinas, quando um grupo nacionalista local publicou em castelhano uma conferência dada por Evola na Alemanha, intitulada A Doutrina Ariana de Luta e Vitória. De tal autor interessou-me essencialmente o vínculo que era capaz de efectuar entre a metafísica e a realidade política quotidiana, coisa que não sucedia com outro autor tradicionalista do meu conhecimento, René Guénon.

A primeira obra publicada por si foi, segundo as minhas informações, A Doutrina Ariana de Luta e Vitória. Este livro foi publicado na Argentina no ano de 1982, no mesmo ano em que ocorreu a guerra das Malvinas. A publicação foi feita nesse ano por coincidência ou por intenção?

Tal como lhe expliquei na minha anterior resposta, esse folheto não foi traduzido por mim. A minha primeira tradução foi em 1994, da obra Revolta contra o Mundo Moderno, o que só foi possível quando consegui que me enviassem os livros de Evola desde Itália, já que na sua maioria, os principais especialmente, não estavam traduzidos na nossa língua.

O senhor publicou à volta de trinta livros de e sobre Evola (quantos livros publicou exactamente?). Quais considera serem as mais importantes obras de Evola? Por outras palavras: em que livros lhe parece que o pensamento de Evola é mais profundo, é mais exacto? Onde lhe parece a interpretação tradicionalista mais clara?

Já perdemos a conta a todas as obras que traduzimos de tal autor – digamos uma trintena. Indubitavelmente a mais importante de todas é Revolta contra o Mundo Moderno, mas também o são Os Homens e as Ruínas, Cavalgar o Tigre, Imperialismo Pagão, A Raça do Espírito… A primeira delas sistematiza a totalidade do pensamento evoliano, já as outras analisam problemas particulares.

Defensores da Tradição e gente de fora falam várias vezes de um lado “espiritual” e de um lado “político” da Tradição. Esta distinção parece-lhe oportuna e razoável?
De maneira nenhuma, a menos que entendamos a política, tal como se faz actualmente, como um mero negócio para progredir socialmente. Mas tão-pouco devemos entender o espiritual como uma terapia, tal como sucede nos nossos dias. De um ponto de vista tradicional, a Política é uma espécie de Metafísica prática.

Septentrionis Lux


Recebemos do nosso amigo e camarada Eduard Alcántara a nota que a seguir transcrevemos:

A través de este
enlace se puede acceder a nuestro blog. Está en vías de completarse pero ya dispone de un buen fondo de escritos, por lo que hemos considerado que ya está en disposición de que se pueda hacer público. La línea general de los artículos presentes es la propia de Septentrionis Lux, es decir, aquella guiada por los principios que informan lo que se ha venido a denominar como Tradición y que tan magistralmente nos han sabido transmitir egregias figuras como Julius Evola y René Guénon. No relacionaremos sino a éstos dos por la condición que tienen de principales sistematizadores de la Tradición, ya que de ensanchar la lista de Tradicionalistas de calado ésta podría hacerse en exceso extensiva y no es éste el propósito de esta nota.

El enfoque que dio Julius Evola alrededor de los parámetros propios al Mundo Tradicional motiva que tengamos a éste como el principal faro inspirador. No todos los colaboradores de Septentrionis Lux comparten necesaria y escrupulosamente esta visión del mundo y de la existencia, pero ello no es razón para exclusiones sectarias con las que no comulgamos. Sea como fuera todos los colaboradores sí que comparten su rechazo por el actual orden de cosas y su anhelo por presentar auténticas e integrales alternativas. Algunos de los trabajos redactados corresponden a respuestas dadas a peticiones concretas que se nos han formulado, razón por la cual a alguien quizás pudiera asombrarle algo sus contenidos. Pero, sea como fuere, los ejes que inspiran a la Tradición son los que nos han guiado a la hora de tratar todos y cada uno de estos temas que quizás pudiesen salirse de nuestras temáticas habituales.


Esperamos contar con vuestro valioso crédito.
Saludos
Eduard Alcántara
Septentrionis Lux

Estamos em guarda

Nós, tradicionalistas, ficamos muitas vezes com a sensação de que o que dizemos ou escrevemos é para “ninguém” entender. Seja!

Raramente discutimos o dia-a-dia qui passe e, quando o fazemos, desconcertamos os nossos interlocutores, muitas das vezes de posições e opiniões radicalmente opostas, dizendo-lhes abertamente que estão enganados a nosso respeito pois também nós queremos ver aniquilado aquilo que eles atacam.

Não acreditando, mudam de estratégia e tentam a provocação com coisas que pretensamente, pensam eles, nos são queridas. Então argumentam com conservadorismos burgueses e/ou religiosos à espera que surja em nós uma agressividade na defesa de ditas posições. A desilusão aumenta quando lhes dizemos que estão a atacar o nosso objectivo, provavelmente até prioritário, embora, claro está, desde posições diferentes, mas isto nós não lhes dizemos, o que os deixa mais irritados.

Mas então o que é que vós defendeis (perguntam)? – Nada, ou muito pouca coisa, temos mesmo dificuldade em encontrar coisas defensáveis, pelo que só podemos dizer: lutamos por nós e pelos nossos.

Mas afinal em que mundo acreditais, que sociedade é que pretendeis, alguma coisa deveis defender, não tendes filhos?. o que quereis para eles?

- Sim, defendemos os nossos, já o dissemos, e por muito que nos custe, o melhor para os nossos seria uma dissolução imediata do pós-modernismo, ultimo fôlego do mono-darwiniano que, recordamos, foi usado com mestria e apoteose no desfecho de uma recente reunião política por um popularucho dirigente sofista da chamada esquerda caviar.

Como amamos os nossos, gostaríamos de os ajudar lutando por eles e ao lado deles numa batalha final para que a Ordem pudesse de novo vingar sobre o caos mas, infelizmente, embora estejamos na última fase do kali-yuga, isto não vai acontecer na nossa geração e, portanto, só nos resta treinar “auxiliando”, se vantajoso, as autorizadas forças subversivas a atacar.

É um processo perigoso ou ideologicamente perigoso, exige demasiado, corre-se o risco de se cair numa espécie de síndrome de Estocolmo?

- Sim nós sabemos. Estamos em guarda.

Tigre Branco

Vindo de Espanha, chegou-nos por mão amiga este texto (recomendação) que traduzimos e agora publicamos, ficando desde já a aguardar a chegada deste livro ao nosso país, o que se prevê para Março próximo.

* * *

Por Fernando Sánchez Drago
Há muito tempo que não recomendo um livro. Hoje recomendarei um que me foi recomendado por Javier Moro. Por certo que recomendo também o seu último (El sari rojo, Seix Barral) e todos os anteriores. Javier tem a virtude – penso eu – de adiantar-se sempre: escreve os livros que eu gostaria de escrever. Isso dá-me alguma raiva, mas não me impede de ser-lhe devoto, render-lhe admiração e professar-lhe amizade.

O livro ao qual me vou referir-me é uma novela, trata da Índia de hoje, foi escrita por Aravind Adiga e chama-se Tigre Branco. Ganhou o Main Booker Prize de 2008. A edição espanhola, traduzida com pulso firme por Santiago del Rey, é da Miscelânea. O seu autor nasceu em 1974, vive em Bombaim e foi responsável da revista Time e do Financial Times.

Costumo eu dizer que ninguém escreve boas novelas antes dos quarenta anos. Tigre Branco demonstra que estava equivocado. Trata-se, além disso, do seu primeiro livro. Pertence a um género inventado em Espanha: la picaresca. Mas uma picaresca rica em cargas de profundidade. Os rugidos e a garra deste tigre albino ajudam a entender porque é que a Índia dos nossos dias, com seus méritos e os seus defeitos, é o que é e porque era inevitável que assim fosse.

Um pequeno excerto? Seja. Transcrevo literalmente, de seguida, não sem antes avisar aos leitores que o que nesse texto se diz a propósito das castas, tão desapreciadas e mal entendidas no Ocidente, poderá ferir a sensibilidade dos judeo-cristãos politicamente correctos.

Eis: este país nos seus dias de grandeza, quando era a nação mais rica da Terra, era como um zoo. Um zoo limpo, ordenado e bem conservado. Cada um feliz e no seu sítio. Os ourives, aqui; os vaqueiros, ali; os senhores, acolá. O que se chama Halwai fabricava doces; o vaqueiro cuidava das vacas, e o intocável limpava as fezes. Os senhores eram amáveis com os seus servos. As mulheres cobriam a cabeça com um véu e baixavam os olhos quando falavam com um estranho. E então, graças a todos estes políticos de Deli, no dia 15 de Agosto de 1947, ou seja, no dia em que os britânicos se foram, todas as jaulas ficaram abertas. Os animais começaram a atacar-se e a destroçar-se uns aos outros e a lei da selva substituiu a lei do zoo. Os mais ferozes, os mais famintos, comeram os restantes e começaram a encher a barriga. Isto era a única coisa que contava agora: o tamanho da barriga. Não importava se eras mulher, muçulmano ou intocável: qualquer um com uma boa pança podia progredir. O pai de meu pai era um Halwai autêntico, um fabricante de doces. Mas quando ele herdou a sua loja, um membro de outra casta roubou-a com ajuda da polícia. O meu pai não tinha uma barriga para defender-se. Por isso foi desalojado até ao fundo do lodo, até ao nível de um condutor de rickshaw. Por isso me arrebataram meu destino de gordinho sorridente de pele cremosa. Em resumo: nos velhos tempos havia na Índia um milhar de castas e de destinos. Hoje em dia só há duas castas: a dos homens com grandes barrigas e a dos homens sem barriga. E só dois destinos: comer ou ser comido.

Quem nasceu ou viveu na Índia (ou pelo menos a percorreu a fundo, como Javier Moro e eu) sabe que Aravind Adiga, doa a quem doer, tem razão.

Livro: Diálogos de Doutrina Anti-Democrática

A «Edições Réquila» acaba de reeditar a obra «Diálogos de Doutrina Anti-Democrática», de António José de Brito. Publicado pela primeira vez em 1975, no auge do PREC, esta 2ª edição conta, para além do texto original, com uma «nota à 2ª edição» da autoria do autor. Um livro a não perder!

Onde estiver um legionário, uma chama da Tradição estará acesa

Existem ainda culturas espalhadas pelo planeta que utilizam o tradicional ritual de depuração e limpeza: jejuns, banhos de água fria, longas caminhadas nas montanhas. Tudo isto serve para actualizar a Tradição, colocando-se em contacto com as forças da natureza, conseguindo o reencontro consigo próprio que só se alcança através da privação, ainda que momentânea, do aconchego das pantufas.

Muitas pessoas que não executam na sua vida profissional suficiente exercício físico procuram, e muito bem, compensar isso com a prática de algum desporto. Já falamos das disciplinas que um legionário deve adoptar, se não diariamente sempre que possível, e o possível é sempre que a nossa Vontade prevalece, superando a malha modernista.

Tinham-nos já dado conta duma modernice publicitada por um hollywoodesco actor e se bem nos recordamos a primeira vez que vimos de perto tal “invenção” foi na mala do carro de alguém que connosco privava e precisamente numa das frequentes saídas que fazemos para o “campo” para nos libertarmos um pouco do mundo moderno! A loja que vende o café para dita máquina tem uma qualquer exclusividade que faz com que os modernos cidadãos que possuem tal objecto se vejam obrigados a esperar horas na respectiva loja para obter “tal rara preciosidade”! Nós também não queríamos acreditar até que verificamos in loco! Provavelmente o pacote vem autografado (?!) e assim se explica tal fenómeno.

Conhecemos gente com vocação para a leitura e/ou para a escrita, lêem compulsivamente e vivem a Causa desta forma. Fechados no seu mundo identificam-se com os seus heróis, muitas das vezes copiando-lhes com mais facilidade os defeitos do que as virtudes, e têm contacto com o exterior através do teclado do computador. Condenam a televisão e criticam os teledependentes. Têm uma equipa imaginária pela qual torcem e funcionam como treinadores de bancada dessa mesma equipa. Esta, embora ilusória, não marca golos porque os objectivos são difusos e os jogadores não se identificam uns com os outros nem com o treinador! É uma verdadeira novela que ao não passar na TV mantém agrilhoados os seus protagonistas numa espécie de mundo paralelo irrealizável.

Estes dois exemplos que acabamos de transmitir não são casos extremos destas duas realidades pois à volta destes gravita um pouco de tudo, para o melhor e para o pior. Perder o contacto com a triste realidade ou viver nos amanhãs que cantam não nos leva a lado nenhum. Viver aqui e agora, com o correcto distanciamento de um mundo que embora não seja o nosso somos obrigados a frequentar parece-nos a solução acertada.

O Sol retornará invicto e vitorioso também para nós

Por Ernesto Milà

Os nossos primeiros antepassados observaram que a partir do Solstício de Verão o Sol parecia afastar-se da elíptica, até que na noite de 22 de Dezembro atingia o seu ponto mais baixo; parecia cansado e sem forças para voltar a elevar-se. No entanto, depois de três noites, ao concluir-se a noite de 25 de Dezembro, o Sol ressuscitava e retomava o seu trajecto triunfante que o levaria, de novo, até ao seu ponto mais alto no Solstício de Verão.

Na noite de 25 de Dezembro, Sirius, a estrela mais brilhante do firmamento, conhecida como “a estrela do Oriente”, alinha-se com as três estrelas que compõem a Faixa de Orion, também conhecidas como “os três reis magos”, que parecem segui-la. Este alinhamento marca o lugar preciso do horizonte por onde nascerá o Sol Invicto no próximo amanhecer.

Não é por acaso que o Evangelho fala de uma estrela que “assinala o caminho dos magos” como o local por onde nascerá o Sol. Não é também por acaso que Belém significa “a casa do pão”, pois não em vão tudo isto tem lugar quando o Sol nasce na constelação de Virgem, cujo símbolo tradicional é uma mulher que carrega um molhe de trigo. É preciso recordar que o símbolo astrológico de Virgem é um M modificado tal como a inicial de Maria, mãe de Jesus, chamado também “Sol do mundo”?

Quando o Sol começa a elevar-se a 25 de Dezembro, fá-lo sob a constelação da Cruz do Sul; por isso os antigos diziam que depois de estar três dias morto na Cruz, o Sol Invicto ressuscitava e se elevava novamente em direcção ao céu. Um Deus morto na Cruz e ressuscitado ao terceiro dia… a história soa bem, mas explicando as trajectórias dos astros do firmamento entende-se muito melhor. Seja como for, reflecte o Deus mais antigo conhecido pelos seres humanos: o Sol Invicto.

Analogamente, podemos dizer que nunca como agora, tanto a nossa pátria, como também os nossos povos de origem indo-europeia, jamais viveram uma crise tão grave como a actual. Mas também para nós, como para o eterno Sol Invicto, existe um futuro e um amanhã que nos pertence, tal como diz a antiga saga:

«Brevemente se ouvirá um sussurro ordenando: despertem!
Pátria, pátria, mostra-nos o sinal
Que os nossos filhos esperam ver.
Chegará o amanhã quando o mundo for novo
O amanhã pertence-nos»

O percurso do Sol Invicto e o seu ensinamento são o sinal que esperamos que os nossos compatriotas vejam.

A história dos nossos povos indica que sempre foram capazes de sobrepor-se, como o Sol, a todas as crises e a situações em que tudo parecia perdido. A raça de Aquiles e do Cid, a raça de Artur e dos cavaleiros cruzados, a raça dos hoplitas de Esparta e dos heróis de Lepanto, não se extinguirá aqui e agora, apenas porque uma cambada de abutres carniceiros entrincheirados nos seus bancos e de políticos corruptos fazem frente comum.

Desde os alvores da História, a nossa raça não conheceu outro destino que o combate. Esse mesmo combate é a prova a superar, o desafio sempre presente que todas as gerações tiveram que suportar para mostrar a sua valia.

Hoje, quando a pátria se vê ensombrada por nuvens ameaçadoras, quando já nem sequer parece existir o punhado de soldados dispostos a salvar a civilização de que falava Spengler, hoje precisamente, na noite do Solstício de Inverno, na noite do renascimento do Sol Invicto, temos a firme convicção de que o espírito da Europa jamais se extinguirá enquanto a vontade de permanecer continue a existir em alguns de nós.

Somos muitos os que na Europa esperamos ouvir o sussurro que nos chame de novo ao combate.

Porque ainda que o Sol renascesse no horizonte milhões de anos, não serviria de nada se esse mesmo Sol Invicto não estivesse também presente no nosso coração pois, não em vão, o centro do sistema solar é também o centro do nosso ser.

Assim pois, neste noite obscura do Solstício, desejo-vos uma boa luta e que o Sol Invicto nasça nos vossos corações e vos alumie!

Adriano Romualdi - Presente!

Como todo os anos, a Legião Vertical relembrou no passado Solstício um camarada caído. Este ano recordamos Adriano Romualdi, que Evola considerou como um dos “representantes mais qualificados” da Destra tradicional. Apesar de ter abandonado este mundo ainda muito novo (1940-1973), Romuladi deixou-nos uma obra inestimável.

Adriano Romualdi,
Presente!

Que a Força não falte a quem busca a Verdade!


Escreva aos presos revisionistas:

Germar Rudolf
Schloss 1
D-72108 Rottenburg
Alemanha

Ernst Zündel
J.V.A. Mannheim
Herzogenried Str. 111
D - 68169 Mannheim
F.R.G./BRD
Alemanha

Gerd Honsik
Justizanstalt Wien-Josefstadt
Wickenburggasse 18-22
1082Vienna
Áustria

Attorney Sylvia Stolz
JVA
Oberer Fauler Pelz 1
D- 69117 Heidelberg
Alemanha

Wolfgang Fröhlich
Justizanstalt Wien-Josefstadt
Wickenburggasse 18-22
1082 Vienna
Áustria
«...Esta classe era naturalmente recrutada, durante um longo período de guerra, a partir dos mais viris e aventureiros e, permanentemente, o processo de eliminação prosseguia, sendo excluidos os tímidos e fracos, apenas sobrevivendo "uma estirpe rude, totalmente masculina, dotada de uma força bruta"... para constituir famílias e engrossar as fileiras dos samurais.» (Bushido - Inazo Nitobe)
«Um dia os operários viverão como hoje os burgueses mas sobre eles viverá a casta superior; esta será mais pobre e mais simples mas possuirá o poder».
(- Nietzsche)

Shibumi

- Tenho a impressão que me vai agradar, sir.
- Sem dúvida. Trata-se de um homem merecedor de todo o meu respeito. Possui a qualidade de… como expressá-lo?... de shibumi.
- Shibumi, sir? - Nicholai conhecia a palavra, mas só aplicada a jardins ou a arquitectura, conotada com uma beleza subjacente. - Em que sentido está a utilizar o termo, sir?
- Oh, vagamente. E incorrectamente, desconfio. Uma tentativa desajeitada de descrever uma virtude inefável. Como sabes, o shibumi tem a ver com um grande requinte subjacente a aparências vulgares. É uma afirmação tão exacta que não é ousada, tão acuta que não precisa de ser bela, tão verdadeira que não tem de ser real. Shibumi é mais compreensão do que conhecimento. Um silêncio eloquente. Na conduta, trata-se de humildade sem modéstia. Na arte, onde o shibumi assume a forma de sabi quer dizer uma simplicidade elegante, uma concisão articulada. Na filosofia, onde o shibumi aparece como wabi significa uma tranquilidade espiritual que não é passiva; trata-se de existir, sem a ansiedade da vivência. E na personalidade de um indivíduo é… como se diz? Autoridade sem domínio? Algo do género.
A imaginação de Nicholai foi galvanizada pelo conceito de shibumi. Nenhum outro ideal conseguira afectá-lo assim. - Como se atinge esse shibumi, sir?
- Não se atinge… descobre-se. E apenas homens de um infinito requinte o possuem. Homens como o meu amigo Otake-san.
- Quer dizer, pois, que é necessário um longo caminho até ao shibumi?
- Digamos, antes, que se tem de passar pelo conhecimento e chegar à simplicidade.
A partir desse momento, o principal objectivo da vida de Nicholai resumir-se-ia a tornar-se um homem de shibumi: uma personalidade dotada de calma admirável. Tratava-se de uma vocação que se lhe abria, ao passo que a maioria das outras vocações se lhe fechava por razões de origem, educação e temperamento. Na peugada do shibumi, poderia atingir a perfeição na invisibilidade, sem despertar as atenções e a vingança das massas tirânicas.
Kishikawa-san retirou debaixo da mesa de chá uma caixinha de sândalo embrulhada num bocado de pano-cru e colocou-a nas mãos de Nicholai. - É um presente de despedida, Nikko. Uma insignificância.
Nicholai fez uma vénia de agradecimento e pegou no embrulho com grande ternura; não expressou a sua gratidão com palavras inúteis. Era o seu primeiro acto consciente de shibumi.
Embora tivessem conversado juntos até tarde, naquela última noite, sobre o que shibumi significava ou poderia significar, na essência mais profunda não estavam de acordo. Para o general shibumi era uma espécie de submissão; para Nicholai uma espécie de poder.
Ambos eram cativos das gerações a que pertenciam.

- Trevanian, Shibumi.

O problema da raça

«(...) Após a segunda guerra mundial tive que afirmar o absurdo que era insistir sobre o problema “judeu” ou “ariano”, justamente porque o comportamento negativo atribuído aos judeus está já presente em grande parte dos arianos, sem que estes últimos tenham sequer, como os primeiros, a atenuante da predisposição hereditária.

Em segundo lugar, o conceito de raça interior conduzia ao de raça como energia formativa. Poderíamos sobretudo explicar a aparição de um dado tipo comum suficientemente constante a partir de misturas étnicas por efeito de um poder formador interno, tendo a sua expressão mais directa numa dada civilização ou tradição. O próprio povo judeu oferecia o melhor exemplo disto: não tendo qualquer homogeneidade étnica (de raça física) na sua origem, uma tradição permitiu formar um tipo hereditário bem reconhecível, a tal ponto que os judeus fornecem um dos exemplos mais característicos de tenaz unidade racial da história. Um outro exemplo, mais recente, é a América setentrional: o tipo americano tomou forma com traços suficientemente precisos (especialmente como raça interior), graças à força formadora da alma de uma civilização, a qual agiu sob a mistura étnica mais inverosímil. Isto elimina a ideia que qualquer condicionamento unilateral a partir do inferior, quer dizer, pelo simples bios

- Julius Evola (excerto do capítulo XI do libro «O Caminho do Cinábrio», intitulado «O problema da raça», a ser publicado no próximo número do Boletim Evoliano)

Cavalgar o tigre

Porque hoje, dia 3 de Outubro de 2008, é preciso recordar as palavras do Mestre e definitivamente aprendermos a Cavalgar o Tigre:
“Pode então significar que quando uma civilização atinge o seu auge é difícil alcançar um resultado qualquer resistindo, opondo-se directamente às forças em movimento. A corrente é muito forte e qualquer um correria o risco de ver-se arrastado. O essencial é não se deixar impressionar por aquilo que parece todo-poderoso, nem tão pouco pelo triunfo aparente das forças da época. Privadas de ligação com qualquer princípio superior, na realidade estas forças têm um campo de acção limitado.”
“A fórmula «ir, não onde se defende mas sim onde se ataca», proposta por alguns, poderá ser adoptada pelo grupo dos homens diferenciados, descendentes da Tradição.”
“A regra a seguir consiste em deixar livre o curso das forças e dos processos da época, permanecendo firmes e dispostos a intervir «quando o tigre, que não pode atirar-se sobre quem o cavalga estiver fatigado de correr».”
- Julius Evola

Por uma questão de vergonha

Relembramo-nos deste tema a propósito de uma conversa que recentemente tivemos com um amigo nosso. Contava-nos ele que certos indivíduos por estarem na “nossa área” e portanto contra este modelo económico-social, não davam a importância devida ao dinheiro… eram, em última análise, dizia-nos, maus a fazer e a prestar contas.

Há uns meses recebemos um contacto de Inglaterra de um (mais um) indivíduo da “nossa área” que queria a t-shirt de Julius Evola. Depois de estudada a melhor forma de enviar a dita para Inglaterra e depois de se verificar que os ingleses (também nisto) não tinham a “convenção europeia de correios”, decidimos enviar a t-shirt sem ser à cobrança. Assim fizemos, carta registada com o conteúdo lá dentro, e informamos o inglês que quando recebesse a encomenda nos enviasse os euros da mesma forma. Até à data estamos à espera do dinheiro. É claro que esta questão foi debatida entre nós antes do envio mas chegamos à conclusão que valia a pena arriscar e desta forma sabermos se era realmente um dos nossos ou não. Neste caso perdemos uns trocos mas ganhamos uma certeza – este indivíduo não é dos nossos.

Também conhecemos outros que com emprego e profissão estável dão mais importância às gorjetas que muitas vezes ilicitamente recebem do que ao vencimento a que têm direito pelo seu trabalho. E isto, embora não pareça, é grave, mostra falta de carácter, uma atitude de servilismo própria de gente inferior.

Não queremos dar demasiada importância ao assunto, mas preocupa-nos que gente que se diz da nossa, se “esqueça” de pagar as dívidas, de devolver os livros que lhes emprestam, etc. O que não nos pertence devolve-se, se não nos pesa nas mãos deve, se formos homens, pesar-nos na consciência.

O ser contra o sistema burguês capitalista não pode jamais servir de desculpa para não se cumprir com as obrigações e a palavra dada, sobretudo para com os seus camaradas.

Quando falamos com pessoas mais velhas, e tendo em conta os dias que correm, costuma vir ao de cima a frase batida: “eu ainda sou do tempo em que a palavra e um aperto de mão selavam os contratos, e ai de quem falhasse!”

Pois bem, a célebre Palavra de Honra que conhecemos como selo contratual máximo e apanágio de outras épocas já passou de moda, e é bom que tenhamos presente que não foi uma invenção burguesa para selar contratos comerciais. Na passagem do domínio da casta guerreira para a mercantil, os burgueses, senhores do Terceiro Estado, copiaram, e ainda bem, pormenores que não faziam propriamente parte dos seus “genes” e ganharam com esta atitude respeitabilidade fazendo com que outros os admirassem (também) como Senhores, homens de palavra – Homens de Honra.

Com o advento do Quinto Estado, o do pária, a confusão aumentou, já não sabemos mais onde estão os homens e muito menos os Homens de Honra. Relembrando um outro caso em que alguém ligado ao sistema judiciário nos dizia: a nova moda dos “ricos” para não cumprirem com as suas obrigações financeiras é apresentarem insolvência em Tribunal, eles já não têm vergonha, pelo contrário começa a ser sinal de um novo tipo: o “chic… esperto”!

A mesma fonte informava-nos conhecer uma empregada de limpeza que, encontrando-se financeiramente com a corda ao pescoço e mesmo depois de lhe explicada a situação do processo de insolvência… se recusava a “abrir falência”, pois tinha vergonha. Pôs a sua casa à venda e o marido emigrara para conseguir fazer face às dívidas.

Felizmente ainda há gente com vergonha. Pois só homens de honra conhecem esse sentimento. Não fosse o sentimento de vergonha (o nome manchado), um dos pilares da educação do jovem samurai – Bushido.

Legião em treino


Acerca da Fidelidade

Julius Evola

Pode não se achar particularmente interessante voltar a evocar alguns ideais éticos que tiveram uma particular força e prestígio nas civilizações anteriores das nossas raças e que foram um factor da sua grandeza, embora, por outro lado, se encontrem praticamente desvanecidos no esterco do mundo actual. Um de tais casos é o relativo à fides.

Em latim o sentido do termo não é a “fé”, mas sim sobretudo a fidelidade: a um compromisso, a um juramento, a um pacto, à palavra dada, a um vínculo livremente aceite. Para além do mundo meramente humano, a fides transforma-se em “fé”, estende-se às relações com potências superiores, e então ela funda a religio, termo que na sua origem significava “vinculação”: vinculação entre o indivíduo e o divino. O pressuposto existencial da fides no primeiro sentido e, simultaneamente, aquilo do qual a mesma é sua manifestação, é a virtus, não na sua acepção moralista ou inclusive sexual, mas no sentido de uma firmeza interior, de uma rectidão.

Portanto é à romanidade antiga que nos podemos referir em primeiro lugar em relação ao ideal em questão. Assim se deu à fides a figura de uma deusa, em Roma a mesma foi objecto de um culto entre os mais antigos e sabedores. Fides romana, se dizia em tempos pré-históricos; alma fides, fides, sancta, casta, incorrupta, se dirá mais tarde. A mesma é uma característica dos romanos, afirma Lívio; ela define o romano ante o “bárbaro”, na antítese de uma norma de uma adesão incondicional a um pacto jurado e à conduta de quem ao contrário segue as contingências e a oportunidade, sob o signo daquela entidade que era denominada “Fortuna”. Máxima era a adesão àquela norma entre os antigos, refere-nos Sérvio, maxima erat apud majores cura fidel. Com sua decadência, adverte profeticamente Cícero, também a virtus decai, assim como o costume, a interior dignidade e a força dos povos.

É assim que a fides em Roma pôde ter um templo simbólico, aedes Fidei populi romani, no centro da cidade, no Capitólio, perto do templo do máximo Deus, de Júpiter. Esta contiguidade possui um significado particular. Da mesma maneira que Zeus entre os Gregos, Mitra entre os Iranianos, Indra entre os Hindus, Júpiter, representação romana de um não diferente princípio metafísico, era em Roma o deus do juramento e da lealdade. Qual deus do céu luminoso, Lucetius, ele era também o dos pactos jurados, do compromisso claro e privado de reticências. Dizia-se: Jovis fiducia; com o qual a fides recebia um crisma religioso e uma sanção sobrenatural.

E este valor incluiu-se também na realidade política. Assim, o próprio Senado pôde aparecer como um “templo vivente da fidelidade” – fides templum vivum – e às vezes o mesmo se reunia ao redor do altar capitolino da deusa. Por outro lado, o emblema mais corrente para a fides foi o estandarte da águia das legiões, e a fidelidade assumiu a forma essencial de fidelidade guerreira ante o chefe e o soberano: fides equitum, fides militum. A mencionada interferência com a esfera sagrada encontra uma nova confirmação no facto de que em Roma existiu uma enigmática relação entre os conceitos de fidelidade, de vitória e de vida imortal. À Victoria, concebida e personificada como uma entidade mística, o Senado romano prestava com efeito o seu juramento de fidelidade com um rito tradicional que foi o último a resistir ante o advento dos novos cultos cristãos: fides Victoriae. A síntese mais sugestiva foi, a tal respeito, uma representação da época imperial na qual a Fides personificada e divinizada leva entre outras coisas a imagem da Victoria e um globo sobrevoado por uma Fénix, ou seja pelo símbolo animal das ressurreições, enquanto no alto se vê um imperador no acto de sacrificar a Júpiter, enquanto é coroado por Victoria.

Assim com o Sacro Império Romano, na Idade Media, voltou a ideia romana, ao mesmo tempo houve um retorno da ética da fidelidade, que, como uma comum herança indo-europeia, era própria de modo eminente das estirpes germânicas. Deste modo trust, Treux, fides, ou como se pudesse haver denominado um mesmo princípio, teve um papel essencialíssimo no mundo medieval, em especial no feudal, do qual se constituiu na premissa fundamental. Pode-se falar de um sacramentum fidelitatis e uma máxima do Código Saxão, do Sachenspiegel foi: “Nossa honra chama-se fidelidade”; também na epopeia dos Nibelungos, no Niebelungenlied, se encontra o dito de que “a fidelidade é mais forte que o fogo”.

A tradição perpetuou-se para além da Idade Média sobretudo na área germânica, de tal modo que a Alemanha procurou quase, como um monopólio unilateral, convertê-la numa característica nacional ou de raça, alcunhando a fórmula Deutsche Treue, ou seja: “fidelidade germânica”. No entanto não há dúvida de que o conceito de fidelidade teve um particular relevo no prussianismo, em especial no exército, no corpo de oficiais e na nobreza, e sabe-se que a impossibilidade que se sentiu de violar a fidelidade ao juramento prestado foi aquilo que bloqueou acções intentadas contra Hitler, apesar de tudo aquilo que poderia ter justificado, desde um certo ponto de vista, tal infracção. Por outro lado, um dos aspectos positivos do nacional-socialismo foi a sua tentativa de pôr justamente a fidelidade, associada à honra, como fundamento de uma reconstrução orgânica e anti-marxista da economia. Na correspondente legislação, contra o “classismo” da luta de classes e do sindicalismo, postulava-se a solidariedade ética. O empresário tinha que corresponder à figura de um chefe (Führer), com uma correspondente autoridade e correspondentes responsabilidades, os mestres de ofício tinham que corresponder à figura de “séquito” próprio (Gefolgshaft) associado a ele e fiel na actividade produtiva. Um denominado “tribunal de honra” era chamado a dirimir os eventuais conflitos.

Lamentavelmente na moderna área latina os mencionados princípios não tiveram a mesma força, e isso em grande medida também pelo predomínio da tendência individualista. No plano político-militar recorda-se o caso, na última guerra, do comportamento do Soberano italiano, que enquanto dava ao embaixador alemão a garantia formal de que Itália continuaria a combater ao lado do aliado, estabelecia acordos com o inimigo; junte-se a isso a sua atitude em relação a Mussolini. As distintas circunstâncias contingentes que podiam ter justificado uma tal conduta de um ponto de vista pragmático, não reflectem de modo algum a ética da qual a Roma antiga, tal como se viu, tanto se orgulhava. Talvez em Itália a última manifestação de tal orientação deu-se no final da II Guerra Mundial, quando um número significativo de italianos não hesitou em bater-se, ainda que em posições perdidas, justamente em nome do princípio de fidelidade e de honra.

Hoje em dia tudo isto aparece como anacrónico ou vale simplesmente como mera retórica, tão grande é a prevalência de um tipo de homem fugaz e sem carácter, sempre pronto a trocar de lado conforme ventos mais favoráveis e sempre mobilizado por baixos interesses. A democracia é o terreno mais propício para a “cultura” de um semelhante tipo. Na realidade existe uma relação estreita entre fides e personalidade. A fidelidade é algo que não se pode nem vender nem comprar. À lei obedecemos, às necessidades verga-mo-nos, à conveniência ponderá-mo-la, mas a fides, a fidelidade, apenas o acto livre de uma interior nobreza pode estabelecê-la. Fides significa pois personalidade.

- Il Conciliatore, Fevereiro de 1972.
"Amigo,
Quem quer que sejas, a quem as casualidades da Internet conduziram até aqui, sê bem-vindo. Aqui encontrarás pouco ou nada do que o mundo actual aprecia. Também não encontrarás a mínima preocupação de ser diferente."

- Monges da Cartuxa

O progresso...

Uma marcha "obscurantista"...



e uma marcha moderna!

Boletim Evoliano


Os interessados em adquirir o Boletim Evoliano em formato papel podem contactar a Legião Vertical.

Muralha

O soldado tem como profissão a guerra, mas é comum dizer-se que não é ele que a começa (“a guerra é a continuação da política por meios violentos”) e, por conseguinte, quem inicia a guerra são os políticos.

A nossa luta não entra nos manuais das célebres academias militares (será que alguma vez ouviram as expressões “cavalgar o tigre” ou “atacar onde o tigre mostra mais fragilidade”?); não somos guerrilheiros, a nossa forma de combate ainda não lhes suscitou particular interesse, muito embora a sua preparação lhes deixe antever algo de “novo” e com formas muito diversificadas.

Nós temos algumas vantagens: podemos aprender com os erros ou as vitórias deles, e eles não podem aprender connosco, pela nossa “insignificância” e até porque ignoram a nossa existência.

A sociedade económico-pária onde temos que viver, trabalhar e educar os nossos filhos, está tão absorvida na sua alucinante viagem que, mesmo não sabendo para onde caminha, esquece que há gente como nós, com uma perspectiva diferente. Gente diferenciada, que aguarda o momento oportuno para servir o “tigre” com o seu próprio veneno, aquele que é hoje publicitado como elixir da felicidade: o mundo globalizado das massas humanas indiferenciadas e consumidoras.

A nós cabe-nos, embora incapazes de conter tal avalanche, estar atentos, treinados, preparados e, como o bambu, permanecer flexivelmente firmes, enraizados. Para que tal aconteça há que ter consciência e observarmos algumas atitudes pessoais, essas sim que podemos alterar e pôr em prática sem estar à espera de conseguirmos sozinhos através de qualquer acto político ou belicista derrubar o governo ou governos cleptocratas das actuais democracias capitalistas.

O auto-controlo tantas vezes difícil de manter na nossa vida diária, em casa, no emprego ou na rua, que em muitas situações é activado pelo medo de perder o emprego ou de gerar mais violência com repercussões incalculáveis, deve ser no seio da nossa Ordem conscientemente assumido e posto em prática. Treinar a cortesia sem servilismo, treinar a dureza sem ódio.

Relembro, porque me parece oportuno, o que o nosso irmão, o Grego, escreveu na Muralha XVIII:

“Os conselheiros legionários devem estudar psíquica e emocionalmente a personalidade do Comandante para não tomarem atitudes que o irritem desnecessariamente… Devem protegê-lo dos incómodos e da perda de energia causados por discussões banais que o distraiam, no seu difícil trabalho de comando e orientação. Ele deve, isso sim, ter conselheiros – secretários por ele escolhidos, que o livrarão das preocupações menores.”

No plano das atitudes e comportamentos pessoais, e porque nenhum de nós é rico, estando alguns inclusive a passar uma fase económica menos favorável, devemos lembrar-nos que o nosso trabalho, os nossos empregos, dão-nos alguma segurança económica – e isso é bom, mas não é tudo!

Atenção portanto, com quem pensa acumular grandes riquezas, e que quer fazer desta vida uma eterna batalha para ser rico, pois se já somos escravos, mais ou menos livres, de modo algum podemos virar prostitutas e agir como um burro a quem prenderam uma cenoura à frente da cabeça…

É preciso termos em mente que a ânsia de uma conquista económico-social pode inadvertidamente levar a um distanciamento de si mesmo e por conseguinte de tudo o que não tem a ver simplesmente com dinheiro como é o caso da Legião.

O saber usar as armas do inimigo, já noutras alturas mencionado, é também isto, meus caros camaradas: viver no meio deles sem nos deixarmos influenciar. Difícil? Sabemos que sim.

Mas então perguntarão: os ricos não podem fazer parte, ou é necessário ser-se sempre pobre ou remediado para pertencer à Legião?

Nós não queremos fazer sentir os ricos culpados, nem tirar aos pobres o sonho de o ser!

Poderíamos abordar esta questão de várias perspectivas, mas vejamos:

Um rico, um muito rico, ou um indivíduo que vive economicamente desafogado, e tenha conhecimento da nossa existência e que de nós pretenda aproximar-se… Vem até nós, passa uma temporada connosco, e até, suponhamos, conseguimos produzir a empatia necessária para ele ficar: será que facilmente aceitará a nossa Hierarquia, que não é baseada nem na classe social nem no diploma universitário?

Um juiz, por exemplo (rico ou desafogado), será que aceitava ser comandado por um indivíduo hierarquicamente (na sociedade-económico-laboral) inferior a ele?

Agora façamos um esforço e imaginemos que um indivíduo com as características socio-económicas atrás mencionadas se entrega verdadeiramente à nossa Causa e aceita a nossa Hierarquia – não é fácil, pois não? Mas se por acaso isso acontecer sabemos então perfeitamente que estamos na presença de um Homem Diferenciado. Alguém que ultrapassou o homo economicus que há em si.

O problema é quando no nosso íntimo continua latente a necessidade, diríamos primária, de subirmos na Hierarquia de Ferro, não com a intenção de obtermos meios (as armas do inimigo) para ajudar a Hierarquia de Ouro, mas para simplesmente conseguir ouro galgando os degraus do ferro.

Somos soldados, e se bem que o ouro seja também para nós aliciante, não nos deixaremos ofuscar pelo seu brilho nem faremos dele o nosso objectivo. As nossas riquezas são: as nossas armas, os nossos camaradas, a nossa Ordem e a serena vontade de sermos Diferenciados num mundo em ruínas.

Sabemos que outros núcleos, outros movimentos, outras irmandades se organizam e laboram, tal como nós, em prol do advento de uma nova Idade de Ouro. Haverá em cada elemento ou grupo propensões diferentes próprias do carácter e personalidade de quem as integra e dirige: haverá vocações guerreiras, outras culturais, outras místicas ou mais espirituais e outras ainda políticas, estas talvez as que menos nos interessam como forma prática de actuação. No contexto actual tal acção não passaria de passatempo enganador… Alguns de nós que estivemos mais ou menos envolvidos e participamos nalgumas manifestações políticas sabemos que cada ilusão de avanço tem levado a um maior recuo.

Portanto pormos em evidência uma acção política externa, e é disso que estamos a falar, sobretudo a nós tradicionalistas evolianos, não nos traria grandes vantagens. O nosso trabalho é sobretudo interno e, embora com algumas nuances pragmáticas, não é para nós mas para as futuras gerações. Isto não põe de lado, como é óbvio, a hipótese de darmos o nosso contributo, marcando presença, sempre que acharmos necessário.

Templários

A Pobreza

A pobreza «é uma das essenciais colunas» da vida monástica. Ser pobre por fatalidade nunca se considera motivo de grandeza, mas de misericórdia. O pobre que é pobre por não conseguir ser rico padece de uma carência, espécie de moléstia, que pode resultar incurável. A pobreza é então moléstia, sem mérito, salvo o que decorre do que, possuído de caridade, ajuda essa pobreza a suavizar-se, ou mitiga o sofrimento do pobre mediante a esmola, a caridade, ou o serviço social. Neste caso verifica-se a realeza do prolóquio: «há males que vêm por bem»…

Ser pobre por eleição eis um motivo de grandeza e de glória… O voto de pobreza é um carisma, exprime a grandeza da alma que se aposta num despojamento das coisas e dos bens materiais, para concentrar a alma no que mais importa. Na vida monástica, a pobreza, além de carisma essencial, releva do benefício de cada um nada ter, em favor da comunidade que tudo possui.

O Silêncio

O silêncio constitui, na vida de uma comunidade religiosa, uma forma tácita de palavra de vida. Quando a boca e os lábios se calam é porque o dono da casa entrou na sua mansão. A regra do silêncio institui-se como bem da vida comum, do património da corporação.

A Obediência

A clave da Regra é o voto de obediência… Obedecer é viver conforme a Regra: cumpri-la, letra a letra. Ao prometer os votos o cavaleiro deixa de ter vontade própria. Nada fará do que lhe possa apetecer, ou do que achar por bem planear, mesmo que seja uma boa acção. O cavaleiro vive o caminho da perfeição, obedecendo. A Regra, é apresentada aos que «proprias voluntates sequi contemnunt», aos que têm a generosidade de renunciar à própria vontade, para fazerem a dos Irmãos em comunidade. Não há obediência ao Mestre se não houver obediência à Regra; obedecer à Regra significa obedecer ao Mestre, aos Irmãos, à Ordem.

O Irmão que cumpre o voto de obediência cumpre por concomitância os demais votos, porque só a obediência é englobante.

Extraído do livro, A Regra Primitiva dos Cavaleiros Templários, de Pinharanda Gomes (Hugin Editores).
Imagem: Il Sangue contro l’oro de Franco Cenerelli.

Ao relermos um dos textos publicados no Causa Nacional retivemos estas breves passagens:

«Quem tiver o culto da dignidade, do aprumo, da coragem, não pode deixar de sentir veneração profunda pela arrancada sem esperança dos fiéis do último Mussolini, o Mussolini que, deliberadamente, enveredou pelo rumo do perigo, da amargura, da impopularidade, preferindo quebrar a torcer e mostrando-se, na adversidade do seu dramático e respeito do que nas horas triunfantes das vitórias e dos êxitos estrondosos.

Conforme escreveu Julius Evola (que também esteve com a República Social): “O valor do segundo fascismo está no seu aspecto combatentístico e legionário; como já muito justamente se disse, talvez pela primeira vez na… história, número importante de italianos escolheu, resolutamente, a vida do sacrifício, da derrota, em nome do princípio da fidelidade a um chefe e à honra militar. O seu valor esteve, de uma forma geral, na disposição heróica a lutar ainda que por posições perdidas já.”
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Tropa de Elite (I)

O filme de José Padiha, vencedor do Festival de Berlim deste ano, tem estreia marcada nos cinemas portugueses a 10 de Julho. Depois de muitos de nós já o termos visto à socapa chegou a hora de o vermos no grande ecrã.

Momento histórico?

Acabamos de ouvir, no programa “A Herança” da RTP 1, a seguinte questão: “A obra «Revolta contra o Mundo Moderno» é da autoria de Julius Evola? Verdadeiro ou Falso?” Julius Evola mencionado pela primeira vez na televisão nacional?
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